Fiquei mais de uma semana enchendo alguns amigos para vermos esse filme e fiquei um pouco surpresa porque alguns não conheciam. Eu achei que o Banksy fosse absolutamente conhecido, mas parece que ele ainda pode ser considerado minimamente underground. Se você não conhece o Banksy... Bem, ninguém realmente conhece. Ele é um grafiteiro inglês que esconde sua identidade, talvez por isso seja tão famoso. Mas não só por isso. Seus grafitis e estêncils são incontestavelmente interessantes. Além do cunho político, eles se desenvolvem com uma conexão sempre direta com o que está acontecendo, como guerras, violência, cultura digital, etc. Ele também interage bastante com o ambiente, não só pintando coisas aleatórias. Ele é, na verdade, um artista plástico completo: também pinta, faz esculturas e instalações. Ah, ele usa constantemente símbolos de ratos e anarquismo. Se um dia você estiver de rolé em Londres, Bristol ou redondezas, preste atenção.
De qualquer forma, esse documentário, Exit Through the Gift Shop (todinho no youtube, dá para achar com legenda em inglês, português, sem legenda, etc) fala um pouco sobre ele, mas na verdade foi dirigido por ele. A história é o seguinte: um locão francês que mora Los Angeles chamado Thierry Guetta é completamente viciado em filmar. Ele filma a família, seu trabalho, tudo mesmo. Até que começa a filmar grafiteiros em LA, por influência de um primo, que o apresenta a um artista local. Therry passa um bom tempo seguindo esse cara, que o apresenta a várias outras pessoas.
Ele tem incríveis e inesgotáveis horas de artistas de LA pichando e de suas obras. Ao longo do tempo, vira amigo dos grafiteiros - embora todos o achem um pouco estranho. Até que, um dia, Banksy aparece na cidade e acaba precisando da ajuda de alguém. E esse alguém é Terry. Os dois começam uma parceria, com Therry gravando Banksy, uma coisa praticamente inimaginável já que, na época (entre o final dos anos 90 e 2000- imagino, já que o filme é de 2010) Banksy já era um famoso anônimo. Logo Therry vai para Londres e também faz imagens de pichações, instalações e do ateliê de Bansky. A questão é que Therry ganhou a confiança de Banksy e fez imagens incríveis. Ele se propôs então a fazer um documentário sobre o assunto, que ficou pronto. Porém, segundo Banksy,o documentário ficou uma bosta. Eu procurei o doc e achei um teaser de 15 minutos (o filme teria pouco mais de uma hora). Eu, particularmente, achei incrível. Apesar de parecer psicodélico, acaba dando uma visão interessante sobre a rapidez com que a cena underground cresce e a velocidade que as pichações se tornam arte e são invariavelmente destruídas. O filme se chamaLife Remote Control e eu não tive - ainda - paciência de tentar baixar o filme todo em algum canto da rede. Mas o teaser de 15 minutos está no youtube mesmo.
De qualquer forma, depois de Bansky achar o filme de Therry uma tortura visual, ele resolve dirigir um doc com as imagens de arquivo de Therry, usando-o como personagem principal. O resultado é empolgante. Vale aqui um adendo sobre Therry, que acaba sendo personagem interessante:
Ele é tido pelos grafiteiros quase como um mascote. Até que resolve ser artista, o que é, na minha opinião conservadoramente contestado. Ele contrata uma turma de artistas para fazer acontecer suas ideias mais loucas e faz uma exposição gigantesca em LA. Ele acaba se tornando um artista pop- no sentido de reutilizar os ícones pops- mas também no sentido de ficar bastante famoso, conhecido como Mr. Brainwash.Alguns grafiteiros acham que ele não faz uma "arte pura", talvez? Mas eu achei os trabalhos dele uma contestação da mídia, e justamente uma reflexão sobre o que pode e não pode ser considerado arte na contemporaneidade.
Se você quer saber mais um pouco sobre o Banksy, leia essa matéria da Super, que pode dar uma ideia. Uma coisa legal é que o Bansky dirigiu uma abertura de um episódio dos Simpsons. É no mínimo cruel. Ah, ele tem um site oficial também. Hoje em dia ele é um cara que vive de grafiti. Tem gente arrancando os muros que ele picha. Mas ele já fez uma ação legal, onde vendeu as obras por sessenta contos nas ruas de NY. Até agora não tenho certeza porque desse nome para o filme. "Saída pela loja de presente"?
Confesso que não sou muito de ver documentário no cinema. Não que eu não goste, mas acho que realmente vai da questão que eles simplesmente não passam muito. De qualquer forma, Junho - O mês que mudou o Brasil me fez sair num domingo chuvoso de casa para ver a ÚNICA SESSÃO DISPONÍVEL, NO ÚNICO CINEMA da cidade do Rio de Janeiro. Inclusive deve estar nas últimas semanas de exibição, então corram se quiserem ver. (Ah, o filme também está disponível no Itunes para ser comprado. Lembrando que para baixar você tem que ter o aplicativo e tal. Enfim, se você tem algum produto da Apple, sabe o que fazer. Infelizmente eles não disponibilizaram online para os mortais.)
~~ parênteses (Primeiramente fiquei horrorizada em saber que um filme que estreou no dia 5 de junho, no final do mesmo mês só estava sendo exibido em um cinema, uma sessão disponível. Eu já falei algumas vezes aqui sobre minha felicidade em ver tantos filmes nacionais pipocando, mas a velocidade com que eles entram e saem de cartaz parecem mostrar como as distribuidoras e cinemas não confiam no que estão fazendo.
Segundamente- risos- queria falar que odeio esses subtítulos. "Junho", somente, era um nome muito melhor do que "Junhoomesqueabalouobrasil", misto de clichezão e tentativa de fazer o público entender que o filme se refere à junho de 2013. Se a criatura está saindo de casa para ver uma sessão escassa do filme, tenha certeza que ela sabe à que Junho- o filme se refere. O público não é besta.
Mas, ao filme: quando eu vejo filmes que tem algum interesse prático na minha vida eu uso bloquinhos de anotação, mas dessa vez esqueci. Então comecei a fazer anotações no celular, com o risco de ser chamada de idiota pelos nazi do cinema que não admitem um pio nem luzes. Eu sou a favor dos cochichos, beijos, risadas altas e comentários inconvenientes- na medida certa. -Ok, esse foi mais um parágrafo de falação. Agora, sim: ao filme.) fim dos parênteses ~~
Mas enfim. O filme foca em São Paulo, já que foi produzido pela TV Folha, um canal bacaninha, vinculado à Folha de São Paulo. O doc é bem cronológico e aborda as principais questões- sem respostas claras- que envolveram os protestos: a violência, a mídia, a polícia e quem eram os manifestantes.
O doc se posiciona de forma interessante, colocando a mídia como uma grande influência na configuração dos protestos, coisa que o Movimento Passe Livre comentou numa entrevista que eu fiz para o JB. O Doc mostra como os jornais e a TV se posicionaram contra os protestos e os manifestantes, numa postura de manter a situação como estava, execrando aqueles que buscavam mudanças. Vários exemplos são dados, como o editorial da própria Folha, que coloca os membros do MPL como retardados aproveitadores, quando diz que "Sua reivindicação de reverter o aumento da tarifa de ônibus e metrô de R$ 3 para R$3,20 -- abaixo da inflação, é inútil assinalar-- não passa de pretexto, e dos mais vis. São jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária, que buscam tirar proveito da compreensível irritação geral com o preço pago para viajar em ônibus e trens superlotados". Outro exemplo vem divulgado foi também o comentário de Arnaldo Jabour, no Jornal Nacional, que culminou na resposta "não é só pelos 20 centavos".
Depois - no filme eles vão colocando, inclusive, os dias em que as coisas aconteceram- a mídia muda de discurso. A Folha, que tinha feito esse editorial citado acima, intitulado "Retomar a Paulista" ~~retomar de quem, jesus, a paulista é do povo~~ , no dia 13/06, fez mais três nos dias seguintes, intitulados "Agente do Caos", no dia 15, que começa falando da truculência da polícia, mas ainda trata a pauta do preço das passagens como irreal e os manifestantes, especialmente o MPL, como um grupo que abriga criminosos.
No dia 19, com artigo intitulado "Incógnita nas Ruas", eles continuam dizendo que a tarifa zero é impossível, mas colocam o MPL de forma mais branda. ~~Mas por que, Folha, por que a tarifa zero é impossível? Basta o transporte ser tratado como direito, não como lucro!~~
Já no dia 20, eles falaram sobre a "Vitória das Ruas", tratando os manifestantes como "força popular" e exaltando-os como poderosos. Bem, Arnaldo Jabour também se retratou, dizendo que os mauricinhos que faziam as manifestações não eram uma classe média tão besta assim.
Acontece que a mídia criticou veementemente aqueles que iam às ruas, especialmente por causa da violência, esquecendo um pouco a violência policial contra pessoas, em favor de objetos- defendendo lojas de depredação, garantindo a segurança da propriedade privada. Aqui, o doc traz uma questão importante: existe revolução sem violência? Até que ponto os flagelados devem se preocupar com mercadorias, lojas, depredação? Não só os flagelados, mas aqueles que - classe média ou não- se importam de alguma forma com a pobreza urbana que veem todos os dias. Aqueles que exploram de forma tão desonesta e injusta, merecem perdão e justiça?. Essa pergunta pode parecer lógica para muitas pessoas, mas é preciso coragem para um filme fazer essa pergunta, com a possibilidade ser acusado de incitar o anarquismocomunismodepredaçãoviolênciaguerraódiocrime, só em questionar.
O fim dos protestos, segundo a visão do filme, se baseia muito na mistura de pessoas que começaram a invadir as ruas e rachas nas pautas.A extrema direita, militantes de partidos, pessoas despolitizadas, que mal sabiam sobre o que eram os protestos. Isso levou à minguar as causas e os protestos. A questão de que as pessoas não deixaram as diferenças de lado por uma pauta maior, por uma pauta só. Pode ser. Também. Mas eu penso que, depois que a mídia se colocou do lado dos manifestantes, com uma segurada na violência policial, houve justamente o que o pessoal do MPL me falou na entrevista: a perspectiva dos traumas.
As pessoas ficaram traumatizadas com tanta violência e pelo que foi conseguido - redução das passagens- ser retirado. O MPL também culpa o fim dos protestos pela criminalização dos manifestantes e o Caso Santiago, onde um cinegrafista da Band morreu, no Rio, em fevereiro. Os dois acusados de atirar um fogo de artifício que atingiu o profissional na cabeça estão sendo acusados de homicídio doloso, quando há intenção de matar. Para o MPL, isso é mais uma prova que a mídia, martelando no assunto incessantemente durante dias, também foi bastante responsável pelo fim dos protestos. Bem, pessoalmente, acho que tudo faz parte de uma mistura meio incompreensível que levou ao fim. Mas o que realmente fez diferença foi: pessoas mobilizadas, politizadas continuam fazendo protestos. Mas quem estava indo só na onda, não faria aquilo para sempre. Querendo ou não, para juntar tanta gente, só com a presença de pessoas não tão mobilizadas assim.
A maior parte das pessoas que não era mobilizada em prol de pautas políticas ou sociais antes do protesto, não está mobilizado agora. Acho. O mais importante - pra mim- é a pequena parte que, devido aos protestos se politizou. Não sei se isso aconteceu em grande escala. Mas se os protestos ajudaram a esclarecer algumas pessoas - eu sei que elas existem porque me vejo como uma delas- já valeu grande coisa.
Sempre fui extremamente cética com relação à movimentos sociais, políticos e eleições, num pensamento fechado que não adianta. Está comprado. Uma grande conspiração nos guia. É isso e é isso. Vamos viver a nossa vidinha, fazendo o bem localmente. Só quero me isolar ao máximo de tudo que é ruim e seguir em frente. Se eu seguir na minha consigo minhas coisas e foda-se. Durante os protestos simplesmente ignorei os chamados de amigos que iam às manifestações. Um pouco por realmente não entender direito o que aquilo iria significar- sentia medo de estar sendo manipulada. E por outro lado, pensava que aquelas pessoas que iam não sabiam do que estavam falando. Não sei até que ponto mudei, mas algo mudou. Real e sinceramente.
Pensando melhor, refleti que as pessoas não precisam saber exatamente do que elas estão falando para estarem insatisfeitas. Não precisam saber exatamente quem culpar para ir às ruas. O fato é que a mobilização popular mudou alguma coisa. Ela chocou, abriu os olhos, abaixou as passagens! E, de uma certa forma Junho de 2013 me fez acreditar na minha profissão novamente (o jornalismo). E sem pieguices, no poder do povo. As redes sociais, uma tecla bem batida no doc, foram essenciais. Um jornalista das antigas chega a falar que as revoluções aconteceram, acontecem e acontecerão, com ou sem internet. Sim. Mas ela foi essencial dessa vez, não pelas convocações, mas sim pelo poder de, nesse país onde a imprensa parece sempre estar do lado do mais forte, mostrar os discursos alternativos. Um complô de pessoas que se importavam enchiam, lotavam, transbordavam as redes sociais com vídeos, fotos e depoimentos que contradiziam o que a mídia falava, ou pelo menos mostrava um outro lado. E os discursos alternativas começaram a fazer muito mais sentido do que o mais difundido. Isso foi simplesmente genial. O discurso alternativo mudou o discurso "oficial", "institucionalizado". Ainda que a Folha seja um grande jornal que errou bastante, esse filme foi um discurso alternativo respeitável.
Domínio Público (dirigido por Fausto Mota, Raoni Vidal e Henrique Ligeiro) é um documentário que fala sobre mudanças no Rio de Janeiro, em função dos mega eventos. Ele foi financiado coletivamente e aborda bastante a questão dos protestos de junho que, de alguma - ou de muitas formas-, mostraram a indignação das pessoas com a Copa do Mundo, principalmente. Outros mega eventos aconteceram na cidade nos últimos anos. O primeiro deles foi o Panamericano, em 2007, que pouco legado estrutural ou social deixou. Em 2013, a Jornada Mundial da Juventude e a Copa das Confederações foram motivo de preocupação para muitas pessoas quando a primeira teve que ser transferida de última hora de local, porque o lugar designado alagou; e, a outra, pelos altos preços dos ingressos e o começo do que foi - está sendo- visto na Copa: remoções, especulação imobiliária e violência policial durante manifestações. O que mais me chamou atenção nesse filme foi a vontade que eu tive que algumas pessoas assistissem. Infelizmente essas pessoas são justamente aquelas que eu acho que provavelmente não vão assistir. Algumas pessoas são de fato contra a realização da Copa. Algumas pessoas não entendem como outras são contra ou não se importam com a Copa. Muitas ficam divididas entre gostar tanto de futebol e ver como o evento serviu para legitimar tanta coisa ruim. Outras não se importam com essas coisas e gostam da Copa, porque sim. Depois de acompanhar - a distância- remoções, manifestações, acordos e decisões duvidosas por parte do Estado, estou com nojo da Copa. Só isso. Esse filme condensou o assunto de um jeito tão didático que me deixou triste. Tipo uma coisa que finalmente estala, quebra e acaba de vez. O filme conta com depoimento de autoridades e especialistas em segurança pública e principalmente de pessoas que, de alguma forma, tem vínculo com as favelas, aqui entendidas como territórios diferenciados e segregados da cidade de fato, tanto na composição geográfica quanto na social. Cleonice Dias é Coordenadora do Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania (Ceacc), uma ONG que trabalha na Cidade de Deus, em parceria com a Action Aid. Para ela, o território das favelas está sendo ocupado de forma errônea pela polícia militar, que entra nas favelas para tomar o lugar do Estado. Ela fala disso no contexto da ocupação militarizada das favelas no rio, que aconteceu -e acontece- através das Unidades de Polícia Pacificadora (Upps): "Essa polícia vem hoje travestida de boazinha, de policia cidadã, que vai pacificar", completa ela, não parecendo acreditar de fato na pacificação que a Upp pode trazer. A própria polícia vê com olhos inseguros o modelo no qual a segurança pública de uma cidade é dividida territorialmente de forma diferenciada, como é a fala do delegado da polícia civil do Rio, Orlando Zaccone. "A critica que se constrói não é a presença da polícia, porque a polícia esta presenta em todos os ambientes da cidade. O que podemos criticar é a transferência do poder de governo para o comandante militar. A partir daí você trabalha esse espaço territorial com um espaço de guerra, conde as pessoas são revistadas e tratadas como suspeitas, etc", comenta ele. Ele ainda se questiona "Não é para dizermos que o modelo anterior de ocupação territorial de grupos armados do tráfico ilícito era melhor, mas qual a diferença entre você ter as decisões sobre a vida de uma comunidade na mão de pessoas armadas no tráfico e transferir essa decisão para a polícia? A polícia tem que ter o papel e seu espaço de atuação dentro da sociedade. Ela não pode expandir".
Alguns especialistas em segurança pública do Rio têm essa mesma visão da Upp: a polícia não tem que fazer o papel do Estado, de organizar e prover direitos e benefícios. Eu já fiz algumas entrevistas sobre esse assunto e certas coisas que eu ouvi me fizeram concluir que a Upp é um bom projeto, mas mal executado. Eleonaldo Julião, sociólogo e professor da UFF me deu uma entrevista uma vez e falou que a ocupação policial não era o objetivo e nem é suficiente para resolver os problemas de criminalidade nem sociais do Rio, coisa que parece tão óbvia, mas, no começo das Upps não era sequer conjecturado por se mostrar como, finalmente, uma movimentação do Estado para integrar as favelas ao resto da cidade. Afinal, a favela faz parte da cidade. O favelado também é cidadão. Não? "O simples fato da entrada dos policiais não é o suficiente. A política da UPP, na teoria, apresenta uma 'segurança cidadã', que não existe, que está se restringindo a entrada de policiais.Uma das questões que se tentou mostrar durante a ocupação da Vila Kennedy, por exemplo, foi uma serie de ações, como a Comlurb limpando as ruas. Uma série de ações que deveriam estar sendo organizadas junto com as UPPS, mas que não estão se efetivando. E o que vai acontecer, é que as comunidades vão começar a ir contra isso, porque elas começam a se sentir lesadas pelo que é a proposta e pelo que realmente acontece".
~~A mídia~~ O filme conta com outros depoimentos como Mônica Franciso, coordenadora do Grupo Arteiras e membro da Rede de Instituições do Borel e, como acabo de descobrir, colunista do JB. Ela fala um pouco do incômodo do morador de ter essa situação de militarização - Estado de Exceção. E, vendo ela falar eu penso: como é possível um favelado não detestar a Polícia Militar, que comanda, de forma direta todas as suas ações?
No artigo chamado Um ano, uma fala destacada por Mônica me chamou atenção: "Galeano diz que na, América Latina, a liberdade de expressão consiste no direito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa circulação. E é isso que está sendo subvertido, e é justamente isso que atemoriza, causa espécie, mal-estar". Será que a mídia tem realmente o poder de mudar alguma coisa? Eu penso em todas as revoluções que já existiram - as coisas boas e ruins que elas trouxeram e toda a violência que foi preciso. Mas toda a violência que já existia antes. Fico pensando se o mundo é isso mesmo, violência exploratória, que gera violência rebelde, que pode gerar violência controladora e normativa. E só. A mídia parece incitar a violência, ora na esperança de mudar, ora na esperança de manter o status quo. A grande questão da mídia é o seu poder, que deveria ser de informação, mas acaba sendo de convencimento. Mas a linha entre os dois é tão tênue, que não sei se ela existe de fato.
No doc constam vários depoimentos e os que me chamaram mais atenção foram, não os dos especialistas, mas das pessoas diretamente atingidas. Tanto por sentir a injustiça que elas sofreram quanto por ver quanto essas pessoas estão politizadas e tentando de fato melhorar o território que elas vivem, seja com o apoio do Estado ou não. Em reação à todos esses confrontos, vai surgindo um lugar onde "as pessoas lutam mais e se insurgem mais", como reflete Maurício Campos, engenheiro e membro do Coletivo de Técnicos Voluntários Contra as Remoções.
Depois de toda essa ruminação pensativa e inconclusiva:
ps.: Viva a iniciativa de colocar online o conteúdo. Por um mundo onde TUDO seja assim.
Jairo Ferreira, autor, protagonista e o próprio Vampiro
O Vampiro da
Cinemateca, de 1977, dirigido por Jairo Ferreira é um dos filmes mais
experimentais do Cinema Marginal. Com uma linguagem que beira ao documentário,
com voz off constante e cortante de Jairo, o filme faz uma montagem com
diversas imagens de outras obras cinematográficas e de imagens filmadas com
Super8 de Jairo.
Ele se posiciona como
um crítico, tanto da cultura de massa, quanto de outras situações. Ele faz
críticas também a cultura nacional, e ao cinema novo. Em um momento, ele diz:
“O cinema novo é um cadáver gangrenado. Um movimento de direita que se julga de
esquero, Glauber rocha diz que vai descobrir o certo através do errado, Glauber
é uma instituição brasileira, ou seja, ele vai descobrir que ele é o novo lima
Barreto na linha direta de rui Barbosa”. Isso mostra todo o desprezo do
movimento marginal pelo cinema novo, ainda que este bebesse nas descobertas e
obras daquele. Ainda falando sobre Glauber Rocha, maior expoente do cinema
Novo, Jairo faz uma crítica direta “Não adianta Glauber, pode estribuchar. Você
nunca vai ser o Maiakovski brasileiro”.
O filme não segue uma
linha narrativa clássica, intercalando imagens que parecem aleatórias. O único
personagem recorrente é o próprio Jairo, que parece fazer o papel do vampiro da
cinemateca. O autor costumava chamar esse tipo de filme de “cinema de
invenção”. Em certa hora do filme, ele diz “é preciso inventar novos signos”.
Com muitas referências
a arte concreta, a antropofagia de Oswald de Andrade e ao cinema artesanal pré-marginal
de Mujica, o Zé do Caixão, Jairo parece querer inventar um novo significado
para a arte cinematográfica. Em certo momento, ele diz “estamos na trilha da
antropofagia anti-colonialista, metalinguagem, sem linguagem, translinguagem,
meta super 8, cinema concreto”. O filme é justamente um exemplo dessas
abstrações de Jairo. O filme é metalingüístico, porque fala de cinema e seu
papel, além de inserir imagens de outros filmes; é concreto, a medida que faz o
cinema pelo cinema, a filmagem pela filmagem, o som pelo som – a arte pela
arte- sem a necessidade de contar uma história, pregar uma ideia específica ou
se propor a ser didático.
O filme é uma obra da
montagem, onde seu todo só adquire alguma significação – experimental e
inovadora- através das sequenciação. A relação com Mojica e sua admiração fica
clara até no título, fazendo referência ao vampiro, um dos personagens
favoritos do Zé do Caixão. Este que foi um dos precursores no cinema de gênero
brasileiro e provavelmente o mais bem sucedido no quesito terror. Embora com
uma estética e ideologia completamente diferente dos marginais, eles incluíram
Mojica no seu movimento. A estética suja, as câmeras e o baixo orçamento eram
realmente pontos em comum, mas não o maior deles. O objetivo dos Marginais era
usar o grotesco para chocar as pessoas, com um objetivo claramente político,
porque afinal, eles próprios eram politizados e jovens que sofriam com a
censura. Queriam proporcionar um choque de realidade nas pessoas. E com seus
filmes de terror, amadores, grotescos e sem um estudo cinematográfico
acadêmico, era justamente isso que Mojica conseguia.
Jairo também quer – e
consegue- chocar. Seja com a cena de masturbação, seja com o homem em frente ao
espelho, cuspindo sangue. Com as ideias de antropofagia na cabeça, Jairo quer
desconstruir o cinema, chocar, fazer pensar, usar referências estrangeiras, mas
construir um cinema crítico e que não se tenha visto nada igual antes. Ele
consegue de fato ser um dos expoentes do cinema marginal e não se viu nada
parecido com seus filmes antes – ou depois, pela força imagética e pela força
do próprio diretor que, além de personagem, se torna o próprio filme.
O filme está (uhul) no youtube, dividido em partes, com a qualidade ruim, mas é uma oportunidade vê-lo. Sem brincadeira.
O novo filme de Jean-Pierre
Jeunet (diretor de O Fabuloso Destino de Amélie Poulin e Alien, a Ressurreição)
conta a trajetória de um menino gênio que inventa uma máquina de movimento
perpétuo e ganha um prêmio de uma instituição que não tem ideia que ele é uma criança. Uma viagem extraordinária (The Young and Prodigious T.S. Spivet) é uma mistura de Road movie,
aventura infantil, delicadeza e fofura. Francês, sim, em todas as características. Mas rodado em inglês. Vai entender.
O menino se chama T.S.
Spivet (Kyle Catlett) e depois de perder seu irmão mais novo num acidente com
uma arma no celeiro, que ele presenciou, foge de casa para receber seu
prêmio. A criança prodígio
desenvolve uma grande culpa pela morte do seu irmão e a depressão da mãe. Ainda sim,
qualquer cena do filme poderia ser considerada alegre, se vista sem movimento.
As cenas são lindas, chamando atenção pelas cores e indumentária. A fotografia e qualidade técnica são simplesmente incríveis. Quem viu Amélie Poulin lembra de como
as cores vibrantes e as misturas quase burlescas fizeram sentido na trama.
Acontece o mesmo. A infância permanece durante todo o filme, tanto no carisma
do ator-mirim-lindo-fofo, quanto na delicadeza recorrente do cinema francês.
Outra recorrência no cinema francês a comédia/drama, que não tem um humor de gargalhar, mas de
fazer
esboçar sorrisos, às vezes seguidos de lágrimas. Todos os perigos que
Spivet
encontra durante sua viagem não são verdadeiramente perigosos, como o
caminhoneiro
fotógrafo e o policial bonachão. São elementos que contribuem para sua
viagem no estilo infantil, se contrapondo com os insights de adulto do
menino. Denis Sanacore fez a
trilha sonora, que
completa a trama de forma bacaninha. Também está presente a sempre linda
Helena
Bonham Carter, interpretando a mãe de Spivet. Os temas principais do
filme –a morte e a culpa- são tratados de uma forma singela. Jeunet
parece buscar um
entendimento sobre as questões, do ponto de vista infantil e simples.
O cinema francês vem
fazendo relativo sucesso no Brasil- pelo menos vem sendo exibido constantemente
nas salas alternativas do Rio de Janeiro. As comédias/drama estão entre os principais
lançamentos e costumam contar com elementos recorrentes: a delicadeza, as cores
pasteis ou muito coloridas e uma produção impecável.
A França é
o terceiro país em produção cinematográfica em nível mundial e ocupa a segunda
posição na distribuição de filmes no mercado internacional. Em 2005, mais de 73
milhões de pessoas assistiram a filmes franceses em todo o mundo.
Segundo
um relatório
do Instituto Franco-brasileiro de Administração de empresas
(Inbae), o consumo do cinema brasileiro vem mudando nos últimos tempos,
mas
ainda enfrente dificuldades em colocar os filmes franceses em circuito,
que são
considerados muito “cult”. Ainda sim,o relatório relembra alguns casos
de
sucesso, como‘Swimming
Pool - À Beira da Piscina’ e ‘As Bicicletas de Belleville’, que tiveram,
respectivamente 117 e 105 mil expectadores e foram mantidos por 40
semanas em
cartaz no circuito brasileiro.
Lembrando rapidamente consigo pensar em
alguns que fizeram relativo sucesso por aqui: Amour, um drama que não
deixou ninguém descartar os lenços; O pequeno Nicolau, que também têm um protagonista menino e fez minha tarde mais feliz; e Grand Central, que não convenceu nem como drama nem como romance.
Bem, para quem mora no Rio de Janeiro, tem duas opções maravilhosas (e gratuitas!) para ficar mais por dentro do cinema francês. A primeira dica é o cineclube Cinemaison Rio, da Embaixada Francesa. Eu nunca consegui ir, mas fico aguando na programação. Toda segunda feira a noite (normalmente as 19h) acontece sessão de um filme francês, com legenda. A programação de junho e julho já está online. E uma novidade: durante esses meses, acontecerão sessões na parte da tarde também. A outra dica é a Aliança Francesa. O curso de idiomas está sempre fazendo sessões de filmes franceses, mas com um probleminha (ou problemão): alguns sem legenda. Vale a pena dar uma olhada no site e conferir a programação. Neste mês de junho, os filmes terão a temática do futebol. A Aliança Francesa também promovo exposições, lançamentos de livros e debates.
O Fim e o Princípio começa com Eduardo Coutinho falando que ele e sua equipe foram até a Paraíba fazer um filme sem nenhuma pesquisa previa, em quatro semanas. O que eles queriam era achar uma comunidade rural que os aceitasse, e procurar bons personagens para fazer um retrato do interior do Nordeste brasileiro. Talvez eles não achassem nada...e aí o filme seria sobre isso. A busca incessante que não deu em nada. Felizmente deu em alguma coisa. Bastante coisa. O doc consegue retratar a realidade do sertão, caindo certeiro em cima desse tema rural depois das últimas produções de Coutinho terem sido sobre a cidade: Edifício Master e Babilônia 2000, ambos retratando paisagens e personagens urbanos cariocas. Eles tem a semelhança de se basearem quase que exclusivamente no que os personagens podem proporcionar, o que eles podem trazer para quem assiste o filme. O Fim e o Princípio traz a temática da morte muito presente, no ponto em que consegue encontrar sertanejos idosos, alguns que parecem centenários, que tem uma visão única sobre a pobreza e a morte que se aproxima. Coutinho parece assim, fazer um paralelo com a sua própria idade e morte próxima, já que ele estava com 72 anos quando fez o filme. Por mais que em Edifício Master e Babilônia 2000 nos coloquem em contato com personagens diferentes, quase que excêntricos, ainda assim, eles não proporcionam o contraste que O fim dá. A diferença da estética nordestina é clara assim que os entrevistados aparecem em tela: a pele bronzeada, as rugas fortíssimas, o rosto castigado pelo sol, ainda sim, idosos fortes, acostumados ao exercício diário necessário para os trabalhos rurais. Esse tipo de iniciativa, de ir até o interior do país para tentar mostrar ao Brasil justamente o que é o Brasil, pareceu uma preocupação real de Coutinho. O homem urbano contemporâneo, aquele que mais vai ao cinema, mal vê o que acontece no interior do país. Mal tem noção de como é a vida, a cara das pessoas, se não se aventurar para além das praias paradisíacas das cidades turísticas nordestinas.
Os Monstros de
Babaloo (1971), dirigido por Elyseu Visconti é um filme marginal, sem dúvidas.
Porém, para quem já viu algumas obras do Cinema Novo e do Cinema Marginal, fica
a impressão de que ele é mais linear e menos fragmentado. O que não tira em
nada a inovação e o experimentalismo do movimento.
Enquanto muitos filmes marginais impediriam que uma resenha como essa começasse
com a frase “o filme conta a história de...”, esse é razoavelmente
tranquilo de identificar o tema e a história principal. O filme conta a
história de.... Bem, de uma família industrial/burguesa carioca, retratando o
relacionamento nada saudável entre seus membros e fazendo uma crítica severa
aos valores dessa classe.
O filme tem uma
característica acentuada do grotesco e de um cinema que precisa agredir o
espectador para se fazer entender. As cenas onde o filho com problemas mentais
(Kleber Santos) é maltratado pela mãe, ou torturado por homens
desconhecidos, são extremamente incomodas e esta segunda faz um paralelo direto
com a ditadura militar que censurou completamente o filme, na época. Todo o
filme tem diversas metáforas para lidar com o regime e com as mudanças sociais
e políticas dos anos 1970.
Quando a família
canta uma música que era símbolo de nacionalismo, ao mesmo tempo podemos ver
como eles são tratados de forma grotesca e feia. A matriarca da família (Wilza Carla) é obesa e em alguma cenas come de forma
fervorosa, até fazer com o que quem assiste fique enjoado. Ela trata seu filho,
com problemas mentais, como um constante incômodo.
O
chefe-da-família, por sua vez, mostra total inabilidade de lidar com os
próprios negócios, tem uma imagem velha e um tanto débil, sendo passado para
trás pela mulher e também pelas amantes, que só o querem por seu dinheiro.
O interesse e
aprovação burguês do estilo de vida americano é presente o tempo todo: toca-se
uma música sentimental em inglês, o irmão com problemas mentais e a irmã
(Helena Ignez) usam camisetas de universidades americanas e a menina diz que precisa
ir para Nova York. Além disso, em certa cena, a mãe diz que quer ir para bem
longe do país, para um outro lugar. Isso demonstra muito da “geleia cultural”
que veio com o Tropicalismo, passando pela antropofagia de Oswald de Andrade,
onde o Brasil consegue se afirmar sua identidade nacional sem rechaçar a
influência de outras culturas, mesmo as que são julgadas como opressoras:
europeia e americana.
O filme é realmente mais engraçado do que muitos do cinema
marginal costumam ser. Tem uma forte relação com as chanchadas, lançando piadas
e performances dos atores bastante voltadas para a comédia escrachada,
especialmente a empregadaZezé Macedo, quetem um papel surpreendentemente
cômico. As alegorias são essenciais no cinema marginal, e nesse filme elas são
bastante claras quando remetem o tempo todo a uma família burguesa quase que
grotesca.
O filme está completo no Youtube, embora a qualidade não seja tão boa.