~sobre Olmo e a Gaivota e o Renascimento do Parto~
O nome Olmo e a Gaivota é curioso. O Olmo é pode chegar a mais de trinta metros. Sua madeira é usada para móveis e na indústria naval. Uma ligação forte com a terra, enquanto a gaivota está longe da terra duplamente. Prioridades. Primeiro o ar, depois o mar, depois a terra, sem a qual, afinal, ela não sobrevive. Ele Olmo, ela gaivota. Enquanto a Olívia Corsini se autodeclara como uma sonhadora, Serge Nicolai parece perfeitamente confortável com a esposa e a vida que tem, não compreendendo a triztesa da esposa. Eles são dois atores de teatro, que acabaram de se descobrir grávidos. Dirigido pela brasileira Petra Costa em parceria com a dinamarquesa Lea Goel, é um filme doce e raivoso ao mesmo tempo. Originalmente, não era sobre a gravidez de Olívia, mas quando as diretoras descobriram que ela estava grávida, embarcaram na ideia. O resultado é um dos filmes mais marcantes que eu já vi sobre gravidez e sobre a mulher grávida.
O Olmo e Gaivota desconstrói completamente a ideia da gravidez como algo lindo. É lindo também, mas é muitas outras coisas. É um período de solidão, de dúvida, de dor e de medo. Falta isso no cinema, no mundo. Falta isso como discurso. Esquecer as fases ruins da gravidez cria uma situação com a qual a mulher tem que lidar sozinha, duplica a solidão. E essa é uma das forças do filme: como ele mostra de forma tão sincera essa solidão de Olívia. Foi nítido como a atriz estava abalada emocionalmente, constantemente a beira das lágrimas. Enquanto se prepara para uma peça importante em sua carreira, descobre-se grávida. Uma gravidez de risco que não permite que ela faça exercícios, atue, suba escadas. Ela mora num prédio sem elevador, com muitos... muitos degraus. Então passa a maior parte da gravidez em casa, presa em seus pensamentos. O marido segue a peça, não pode parar, tem que viajar. Vai e volta. São pensamentos sobre o futuro, sobre o trabalho que deixou, sobre o marido que está num lugar que ela própria gostaria de estar.
Eu entrei no cinema pensando nessa mistura de ficção e documentário que o filme apresentaria. Curiosa. Saí dele pensando sobre gravidez e isso continuou reverberando até agora. Como é importante que as mulheres se vejam na tela dessa forma tão aberta, tão sincera.
Outro filme que foi uma aula é O Renascimento do Parto,de 2013. Dirigido por Eduardo Chauvet, a obra denuncia o número excessivo de cesarianas no Brasil e faz um chamado para a discussão sobre o parto humanizado. O filme foi o documentário com a segunda maior bilheteria de 2013.A questão do filme é o empoderamento da mulher. Seu poder de escolha. Ela deve decidir onde se sente mais segura e amparada, como o parto será feito e por quem. Um dos principais problemas brasileiros relativos à saúde da mulher é a grande quantidade de cesáreas. A Organização Mundial de Saúde recomenda que essas cirurgias sejam usadas em situações especiais e o índice da cirurgia não deve ultrapassar os 15%. Em todo o Brasil, o índice é de quase 40%, enquanto nos hospitais particulares chegam a quase 90%. Muitos motivos resultam nessa prática: medo da mulher, o custo e a rapidez de uma cesárea e especialmente falta de informação.
O filme é extremamente informativo. Pode ajudar mulheres (e homens!) que querem saber mais sobre parto humanizado, sobre a real necessidade de cesárea, sobre métodos internacionais e faz um panorama exemplar de como o assunto vem sendo tratado no Brasil. Veja agora e beijos.
Soylent Green é um filme impactante. "The horror, the horror", diriam
alguns. Produzido em 1973 e dirigido pelo esquecido Richard O. Fleischer é um
filme de ficção-científica com forte viés ecológico. Discute com
propriedade questões levantadas durante os anos 1960 com o surgimento dos movimentos ecológicos, que cresceram junto com a contracultura, os movimentos negros, feministas e homossexuais. A história tem como universo o ano de 2020, num mundo degradado, superpopuloso, superaquecido e no qual falta comida.
~~ Richard O. Fleischer é um desconhecido para a geração mais jovem. Nascido em 1916, e produzindo filmes entre a década de 1940 e 1980 não é de se estranhar esse fato. O diretor, porém, está a frente de adaptações clássicas como 20000 léguas submarinas (1954) e O Fabuloso Doutor Dolittle (o de 1967, não aquele com o Eddie Murphy, mas um musical que é a primeira adaptação cinematográfica dos livros infantis de Hugh Lofting). Ele nasceu dentro do mundo do entretenimento: seu pai é o idealizador de Betty Boop e quem levou Popeye às telas. ~~
O filme
começa com uma compilação de fotos de degradação obviamente reais que
introduzem o horror que será o filme para aqueles que se preocupam com o meio
ambiente. Faz lembrar as imagens devastadoras de Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais.
Ainda, o sentimento é semelhante ao proporcionado pelo livro 1984,
de George Orwell. É um misto de espanto e medo, ao perceber os horrores destas
distopias fictícias e o quão próximo estamos
delas. É um filme daqueles que você sai da sala de cinema querendo largar tudo, ir acampar por um ano e talvez nunca mais voltar.
Em Soylent Green pessoas pobres disputam comida a tapas, dormem amontoadas pelos corredores de prédios, e são retiradas das ruas com a ajuda de tratores ecolheitadeiras. quando se rebelam. Até aí, a fome, a falta de habitação e a truculência estatal fazem são paralelos bem atuais para o Brasil e o mundo. Para além disso, os alimentos são restritos às pastilhas fornecidas pelo Estado, chamados de Soylent enquanto só os ricos se alimentam bem. Soylent é uma palavra inventada no livro de Harry Harrison, "Make Room! Make Room!", um neologismo que mistura Soy (soja) e lentil (lentilha) e no qual o filme tem alguma inspiração. Soylent Green, que dá nome ao filme, é uma pastilha nova que vem sendo introduzida porque os componentes para fazer as outras (soja e algas, se não me engano) estão acabando. As mulheres ricas são objetificadas e colocadas a mercê dos homens de poder. E ainda devem ficar feliz com isso, porque a outra opção é a total penúria.
Nesse mundo onde sabonete, carne, morangos e todo o resto é restrito, o filme conta a história do policial Robert Thorn (Charlton Heston). Por sinal, "Thorn", em inglês, significa "desconforto, irritação", justamente aquilo que o filme passa para os espectadores e o que Thorn acaba virando para a corporação policial e para os ricos ao "investigar mais do que o necessário". Nos é apresentada uma Nova York superpopulada com 40 milhões de habitantes, onde Thorn é designado para investigar a morte de um milionário e não tem pudor em se aproveitar das regalias que encontra na casa e que nunca tinha visto. Aos poucos, o cenário apocalíptico é mostrado, enquanto Thorn tenta desvendar o mistério de quem matou o empresário. O que Thorn descobre no final [OPA, SPOILER MASTER] é que parte dessas pastilhas comestíveis, mais especificamente o Soylent Green é feito dos humanos que morrem. O empresário havia sido morto porque, velho, começava rever aquilo com o que estava compactuando.
Se ainda não chegamos ao ponto de institucionalizar a transformação de
cadáveres (ufa!) em comida, o filme vem alertar, com um cenário mais do que apocalíptico, para a degradação ambiental que temos hoje e o que ela vem causando e pode causar: aquecimento global, contaminação das águas e do solo, concentração populacional, pobreza generalizada, etc. Ao criar uma dicotomia clara entre a classe governante e a
governada, entre os milionários e os paupérrimos, preconiza o que vemos hoje:
uma concentração de renda cada vez maior, onde 1% da população mundialdetém 50% de todo o PIB do planeta. A Onu afirma que, na verdade, não existe pouca produção de alimento, mas má distribuição, o que causa o mesmo efeito da escassez: fome.
Este é um filme de ficção científica de seu tempo. Não espere efeitos especiais alucinantes que foram possíveis em poucos momentos da época. Mas a mensagem é extremamente atual. A ficção científica anterior aos anos 60 retratava mais frequentemente a temática das guerras tecnológicas, exploração do espaço, fazendo um forte diálogo com a Guerra Fria. Entre as referências dos anos 1950 podem ser incluídas The War of the Worlds (1950), dirigido por Byron Haskin, com roteiro baseado no livro A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells; Destination Moon (1950), de Irving Pichel; Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick.
Nos 1970 surgem novas concepções da ficção científica, que engloba os impactos da ciência e da tecnologia na vida humana. São representantes desta década, THX 1138 (1970), de George Lucas; Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, a série Mad Max e o Soylent Green, de Fleischer. Esses filmes fogem das temáticas específicas das guerras e corrida espacial e discutem a sociedade do controle e da disciplina, a intervenção da tecnologia na vida das pessoas e o impacto do modo de vida humano no planeta. Soylent Green, tem como temática principal a falta de comida devido a degradação ambiental causada pelo homem e é um filme extremamente relevante de sci-fi da época.
Não achei o filme em boa qualidade no youtube. Só na versão em espanhol: https://www.youtube.com/watch?v=z4zm_cZYgxo
Eu sempre tive uma impressão estranha
sobre o termo audiovisual, porque o “áudio” precede o “visual” na palavra e é
exatamente o contrário que parece acontecer na maioria dos filmes. As imagens
costumam ser mais importantes, mais comentadas, mais significativas. Só que o filme Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro, utiliza muito, muito bem o som. E
também as imagens. Não consigo decidir o que é mais significativo.
Pesquisando aqui, achei o belo portfólio do diretor pernambucano
(gente, Pernambuco tá com tudo!). Vi que ele dirigiu Domésticas. ~~Lembro que vi
esse filme no começo da faculdade, mas não gostei muito. Não lembro porque, mas
verei novamente e comentarei com mais propriedade porque não gostei. Ou então venho aqui me redimir.~~
Mas, de volta ao Vento de agosto.
Os primeiros 20 minutos não tem falas significativas. Só sons maravilhosos e
imagens orgásticas. Êxtase ocular. Nossa senhora, é muito lindo. O som dos animais, do vento, tudo em hiper sonoridade (neologismo, ê). Ou será que eu que assisti alto de mais? Tenho uma certa agonia de não entender os diálogos travados e isso aconteceu o tempo todo. A cada vez que eu não entendia uma frase, aumentava o volume. Aí cheguei no máximo da TV. Talvez tenha sido o sotaque, mas acho que é intencional mesmo. Os sons do mundo, mais do que os diálogos, tem importância nessa construção. Praticamente não é necessário ouvir o que os atores falam para entender as cenas. Muy Bueno.
Quem já viajou
pelo Nordeste encontra um retrato muito impactante do que vemos por lá.
Trabalhadores rurais envolvidos na extração do coco, palmeiras lindas e gigantes,
praias que ameaçam invadir a cidade, um mar azul, sem ondas, o serviço público triste, até. Eu estive em Alagoas no começo do ano e vi muito do
estado ali. Também, Alagoas é vizinho de Pernambuco, estão ali colados,
sobrevivendo mais ou menos das mesmas atividades. (Num momento do filme, da
delegacia, é em Alagoas, repara só). Imagens maravilhosas ocupam
incessantemente a primeira meia hora do filme, com a participação dos dois
atores principais que eu achei muito bonitos. Ambos. Dandara de Morais e Geová Manoel dos Santos, interpretando Shirley e Jeison.
No final, comecei a me perder um
pouco na história. Não sei se me distraí ou se o filme vai perdendo um pouco a
força, quando não se decide pela história do captador de som, ou de Shierley e
Jeison, ou ainda do mistério da caveira. A resenha promete: “Os ventos crescentes marcarão os próximos dias
da pequena vila colocando Shirley e Jeison numa jornada sobre perda e memória,
a vida e a morte, o vento e o mar”. Essa questão da jornada ficou bem
solta no final, o que não é de fato um problema geral, mas pessoal, acho.
Eu fiquei de cara já com o
trailer. Quando o filme começou foi olho grudado na tela. A imagem de abertura,
quase PB, no barco; a imagem de Shirley e Jeison no barco, a insersão das
trilhas sonoras de rock no meio daquelas imagens do interior. É tudo muito bem
pensado, muito bem fotografado, enquadrado e dirigido. É uma aula de cinema.
O filme está disponível no iTunes e no Vimeo On Demand! Mas fiquem ligados na page porque ele está sendo exibido em vários lugares. Eu, por exemplo, assisti no Canal Brasil ainda a pouco. No dia 30 de maio vai rolar reprise. Vejam o trailer e apaixonem-se! Pelo nordeste, pela fotografia e pela composição:)
A ideia do curta começou com tristeza mesmo, por isso o nome. A Baía é triste, é tudo triste, eu fico triste quando passo pelo Fundão, tanto pelo estado dos canais que cercam a ilha quanto pelo engarrafamento; fico triste quando passo pela Ilha do Governador e vejo aquelas praias lindas embaixo dos viadutos; quando vou à Paquetá e tudo que tem lá é peixe morto; quando vou à Praia Vermelha e fico com medo de entrar na água e pegar uma pereba braba. Fico triste de verdade. E o perigo disso é desistir. É dizer que já era, que não tem mais jeito, que daqui é pra pior. Não, não é assim. Tem muita gente lutando de verdade pelo meio ambiente. Tem gente indo em audiência pública, acampando (como o pessoal do Golfe para quem?), processando, fazendo abraço em árvore, promovendo cursos, conhecimento, discutindo e conseguindo resultados. É o que Alex, o pescador, nos contou sobre a construção de mais uma pista do Galeão. Não, eles não aceitaram. Protestaram até o projeto dar pra trás. E a reforma do pier. Eles não desistiram. Estão aí, lutando por um pier melhor, fazendo mutirão, convocando as pessoas, disseminando o problema e buscando soluções.
Colhereiro: não queria ser fotografado
Sérgio Ricardo, ambientalista e um dos entrevistados, teve uma das falas que mais me impactou: para ele, existe um discurso de que a Baía está morta. Se ela estiver morta, pode degradar ainda mais, pode fazer o que quiser. Mas a experiência de ir na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim me mostrou o contrário. Lá, é como se a Baía nunca tivesse sido tocada. E, apesar de curtir o bondinho, o calçadão de Botafogo e o Aterro do Flamengo, achei a Baía intocada muito mais bonita.
Garça posando para as câmeras
Mais especificamente o Triste Baía fala sobre os imbróglios envolvendo a despoluição da Baía de Guanabara, que teve seu primeiro plano de despoluição idealizado há mais de 20 anos. Foram quatro entrevistados que são envolvidos seriamente com a questão ambiental. A ideia do curta surgiu quando eu estagiava no Jornal do Brasil Online, em 2014. Fiz várias reportagens sobre a despoluição da Baía de Guanabara e entrevistei o biólogo Mário Moscatelli. Achei incrível a dedicação dele e, mais ainda, o discurso dele foi um tapa na cara. Toda a ingenuidade que eu poderia ter sobre a gestão do meio ambiente foi por água abaixo quando entendi o que ele dizia. Não existe má gestão, o dano é intencional e existe por causa da ganância inerente ao nosso sistema político-econômico. Moscatelli monitora a quinze anos diversos sistemas lagunares do Rio, entre eles as lagoas de Jacarepaguá e a Baía de Guanabara. As primeiras entrevistas que eu fiz com ele foram muito impactantes, porque normalmente os entrevistados não querem ser considerados radicais, então medem cada palavra que falam. Ele não era assim. Falou, com muita expertise, sobre tudo que eu perguntava. Foram matérias que eu gostei bastante de fazer. Vou colocar aqui embaixo.
Equipe feliz porque eu não dirigi neste dia e o Moscatelli nerd
Pois bem, depois dessa sequencia de reportagens, vi a chamada do edital e fiquei com aquilo na cabeça. Escrevi tudo que eu tinha aprendido sobre o tema e pronto! Durante a produção do filme, conheci o Alex Santos, pescador da região de Tubiacanga, Ilha do Governador e, através dele, o ambientalista Sérgio Ricardo. Fiquei chocada ao ver o estado da Baía de Guanabara de perto. No caso, Tubiacanga. A parte da Baía que dá para a Praia de Botafogo, Flamengo, Marina da Glória, etc ainda é mais maquiada. Mas experimenta ir nas margens do Canal do Cunha. A palavra triste perde até o significado. (aiai)
Margem de Tubiacanga, Ilha do Governador
Nos encontramos em Tubiacanga, fizemos fotos, conversamos muito e pudemos observar o estado da margem do lugar, o estado do píer. Foi muito triste perceber como o diálogo entre os pescadores e o Ministério da Pesca e as secretarias é falho. Não é por falta de atenção dos pescadores, que são bem organizados em uma associação, buscam seus direitos junto ao MP, e junto aos órgãos competentes. Eu sinceramente ainda não tinha entendido qual era o problema. Só descaso? Até o Moscatelli dar um daqueles tapas bem dados que mudam sua concepção sobre um assunto: "isso se chama industria da degradação. Não é burocracia, não é má gestão. Despoluição não dá dinheiro e exploração máxima sim". Esse é o resumo da ideia. O desgoverno que vivemos não se importa em explorar ao máximo todos os recursos ambientais. Essa parece ser aquela ideia de conspiração máxima, mas não é. A degradação na Baía de Guanabara é algo tão antigo quanto o Rio de Janeiro. É uma cultura de exploração que está sendo muito bem aceita até agora, obrigada.
Não é que agora os interesses econômicos na Baía começaram. Nem a degradação. Desde a colonização é assim. O primeiro grande prejuízo ambiental da Baía acontece ainda no século XVI. Logo que o Rio de Janeiro é habitado, as matas das Ilhas da Baía e da costa transformam-se em reservatório de madeira para os mais diversos fins. Depois, se instala a caça às baleias. Elas usavam as águas calmas da Baía para ter e criar seus filhotes e quando chegavam na região eram caçadas para os mais diversos fins: sua gordura era usada para a iluminação da cidade ou misturada com cal para fabricação de cimento. E a predação gerava outros problemas. As armações para caça das baleias causavam mal cheiro e poluíam as águas, assim como os restos mortais dos animais. Porém, isso foi ignorado e a pesca de baleias se tornou tão importante economicamente que foi monopolizada por Portugal. Tirando isso, ainda existe todo o esgoto da cidade, que era levado à céu aberto até a Baía. O esgotamento do Rio só começa no século XIX. Essas informações vieram especificamente do livro Baía de Guanabara, do Victor Coelho. É uma aula. (Por sinal uma aula incompleta na minha vida porque não terminei de ler, mas enfim,..)
O que temos que entender é que a poluição e a degradação ambiental em função de benefícios econômicos não é de hoje. É desde que o mundo é mundo, ou que o capitalismo existe, sei lá. São poucos as iniciativas de desenvolvimento sustentável em função da Baía de Guanabara - e pensando bem, em função de qualquer coisa no Brasil. E no mundo? Por isso mesmo, elas tem que ser mostradas e incentivadas. E por isso fiz questão de ir até a APA de Guapimirim, onde fomos guiados pelo chefe de lá, Maurício Muniz. Eles tem projetos de desenvolvimento sustentável junto com os pescadores e moradores locais. Fiquei sabendo que boa parte dos caranguejos que comemos vêm daquela região. Embora não tenhamos nos aprofundado nestas questões das iniciativas da sociedade civil, isso vem se formulando na minha mente. As Ongs, os projetos, os coletivos vem movimento todas as cenas e o que mais precisam é divulgação. Projeto pro futuro.
A Sylvia Palma, um dos interlocutores do Futura com os proponentes me disse uma cosia que eu não esqueci: se você começa e termina um filme com a mesma opinião e ideia com a qual começou, alguma coisa tá errada. Então acho que tudo deu muito certo, porque o filme se transformou totalmente ao longo da produção e eu também.
A produção: dicas para quem quer fazer um curta?
Devo confessar que a produção do curta foi relativamente tranquila. Eu conhecia "bastante" o assunto por conta das matérias que já tinha feito e já tinha contato com os entrevistados. O que mais pegou foi aluguel de equipamentos, agenda dos entrevistados e utilização de equipamento. Por mais que o espaço dado pelo Futura seja ótimo, acreditem, seis mil reais não é nada para fazer um filme.
Equipamentos são caros, é fato. O ideal é ter alguém que tenha as coisas. Consegui alguém assim, então ficou faltando o equipamento complementar de som: alguns dias gravador, outros o microfone. Consegui coisas bem baratinhas (aluguel de diária por R$50. Mas foi correria). Já a música que eu queria originalmente utilizar (Triste Bahia, do Caetano Veloso) iria me custar $1000. Tentei de tudo com quem tem os direitos da música (a Warner), mas não teve jeito deles liberaram a música de graça. E olha que eram só 20 segundos da abertura. Felizmente tenho a sorte de conhecer uns músicos talentosos que fizeram uma trilha original de graça. Uma coisa legal que a tecnologia proporciona é cada um fazer suas coisas na sua casinha. Eu não participei da produção das músicas presencialmente. Só ia dando minha opinião por email, pedindo ajustes. E deu certinho.
Equipe lindona!
Uma grande dica é: trabalho coletivo é ótimo, mas divisão de função é melhor ainda. É muito legal poder construir uma narrativa e todo o resto em conjunto, mas na hora de fazer o filme achei essencial a divisão de função (pelo menos foi essa a minha experiência nesse momento). Cada um faz uma coisinha, não dá muito pitaco no trabalho do amigo que tá concentrado. Outra coisa é conhecer bem o equipamento. TEM QUE testar TUDO antes. Câmera, bateria, som. Quando eu digo antes, é antes de sair de casa, não no local, antes de entrevistar. E chamar alguém que saiba o que tá fazendo. O que não foi o nosso caso, já que ninguém era muito experiente. Aprendemos algumas coisas durante a produção depois de nos ferrarmos - o áudio não ficou perfeito, tivemos muitas imagens tremidas que não tinham como ser usadas, tivemos problemas com as cores porque não prestamos tanta atenção nas diferenças da luz: uns com muito sol e outros com muita sombra... Enfim, várias coisas.
Contrate um motorista ou chame um amigo. Eu usei o carro da minha mãe em algumas gravações e foram as piores. Motoristas amadores não conhecem os caminhos (e atalhos) que os motoristas profissionais conhecem - ou amigos motorizados que sabem o que estão fazendo. Isso me fez gastar muito tempo e chegar nos locais estressada e cansada. O diretor tem que se concentrar na sua função, mas quando a questão é cortar os custos... Motoristas profissionais também sabem aonde te levar se você descrever o que quer fazer.
Por último: por mais que eu tenha inscrito a ideia, o filme não é meu. É de toda a equipe. Sem o trabalho de um deles, tudo daria errado. Ou melhor, o tudo seria nada. Fazer um filme é um processo coletivo assustador. Você tem que contar de verdade com aquelas pessoas e elas tem que saber disso. Tem que ter sintonia. Não sente para fazer um filme com quem você tem muitas desavenças, a não ser que queira trabalhar nelas. Outra: Se você quer ter um maior controle sobre o resultado do filme, edite-o. O filme vira outra coisa na ilha.
Sobre o como o curta foi viabilizado: No final de 2014 eu ganhei o edital do Canal Futura para o programa Sala de Notícias. Esse edital é semestral e é um projeto muito bacana. Você pode olhar todos os vídeos, editais passados e informações sobre o programa aqui. Basicamente, o Sala de Notícias é uma faixa da programação que abre espaço para reportagens audiovisuais independentes e dá suporte financeiro para a produção. Tem uma versão universitária e uma versão para não universitários. É um espaço em rede nacional para fazer uma reportagem autoral, coisa difícil de se arranjar. Tem todo o tipo de temática: música, meio ambiente, tecnologia, saúde, mobilidade. Só não lembro de ter visto nada sobre segurança pública, mas tá na mira.
Ficha técnica do curta:
Direção: Gisele Motta Produção: Gisele Motta e Karina de Abreu Edição: Gisele Motta e Rodrigo Pinheiro Câmeras: Felipe Kusnitzki, Karina de Abreu e Rodrigo Pinheiro Trilha sonora: Davi Boia, Fábio Guerra, Thiago Guerra e Phelippe Lobo Sonoplastia: Phelippe Lobo
O
filme Na Quebrada, dirigido porFernando Grostein Júnior, conta a história
de três jovens de Nova Brasilândia, uma favela de São Paulo, que acabam
conhecendo o cinema por conta do trabalho de uma Ong, o Instituto Criar.As
histórias e o filme em si não fogem muito do que vem sido mostrado em filmes de
favela, quase um novo gênero. Na verdade o filme veio para a comemoração de dez anos da Ong,
sendo assim, cumpriu bem seu objetivo. Vamos a história e aos pontos
fortes.
O filme segue a trajetória dos quatro adolescentes: Júnior
(Jean Luis Amorin), Joana (Daiana Andrade), Zeca (Felipe Simas, que segundo minha amiga faz
Malhação, mas só fez eu recordar o Kayky Brito) e Gerson (Jorge
Dias, filho do Mano Brown). Júnior é o personagem engraçado e atrapalhado, que vive
levando choques e quebrando as coisas (me lembrou eu mesma). Parece caricato,
mas os depoimentos reais no final do filme mostram que essas pessoas existem
mais na realidade do que na ficção. Joana é uma menina que esta grávida e tem
pais cegos, vivendo o drama do seu irmão também estar ficando. Zeca tem que
lidar com os pais no mínimo chatos porque quer se tornar um cineasta. Gerson tem
a história mais complicada, com uma mãe solteira e o pai no presídio. A mãe
leva drogas para o pai, até que ele morre e Gerson precisa entrar no mundo do
crime para pagar dívidas.
Zeca, por sinal, tem sua
história baseada na trajetória do co-diretor do Filme, Paulo Eduardo, que foi
marcado pela violência quando leva um tiro na adolescência. Ele se entusiasma
com o cinema e cria uma sala dentro da comunidade, o Cine
Rincão. Tudo isso está no filme. O Cine Rincão foi tema de um curta metragem
que chegou ao Festival de Veneza, também dirigido por Grostein Júnior. Ele fez
parte de um projeto da revista italiana Colors, que buscava curtas de pessoas
que tinham sido baleadas em zonas de conflito pelo mundo. Entre 15 mil inscritos em todo o mundo, Cine Rincão ficou entre
os 10 finalistas exibidos no Festival de Veneza de 2012. Ah, dado
interessante: O Cine Rincão, o curta, tem a trilha sonora de Caetano Veloso e também de Lucas Lima (da Família Lima, sabe? Que casou com a Sandy. Do Sandy e Júnior, lembra?). Lima também participou da trilha
sonora do Na Quebrada.
O que todos eles tem em
comum é que moram em Brasilândia e acabam num curso de Cinema, do Instituto
Criar. Até aí um filme é, vai, nota C. Porém, o que chamou a minha atenção foi a ÓTIMA
atuação daqueles que fazem papel de presos no filme, especialmente o pai de
Gerson, interpretado porAnderson Lima. A
situação foi explicada no final, quando é mostrado que os presos que
participaram do filme são presos ou ex-presos reais. Eles são parte de um grupo
de teatro Do Lado de Cá, que realiza atividades artísticas dentro da Penitenciária
Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, SP. Isso é simplesmente genial. Incluir os
presidiários num grupo desses já seria interessante o suficiente, mas contar
com a ajuda deles num filme como esse é ainda mais importante, tanto para sua
valorização como para reintegração.
O
filme é dirigido por Fernando Grostein Andrade que já fez trabalhos
muito bons. Ele dirigiu Quebrando o Tabu (se você ainda não viu esse filme,
para tudo evai aqui, ó.),
que fala sobre a política de combate às drogas no Brasil e em vários países do
mundo. Ele também é diretor de Coração Vagabundo, que tenho certeza que é muito
bom, mesmo não tendo visto, haha. O documentário sobre o Caetano Veloso (vou
dar um S2 aqui) está no topo da minha lista para coisas urgentes a serem
assistidas. Ele traz o cotidiano da turnê do disco A Foreign Sound, o único disco
de Veloso gravado em inglês.
O engraçado é que Fernando Grostein Andrade, filho de Mário
Andrade, é meio-irmão de Luciano Huck, fundador da Ong. O histericamente
engraçado, para mim, é que Luciano Huck apoiou com afinco a candidatura de
Aécio Neves na corrida presidencial deste lindo ano de 2014. Justamente Aécio,
que é a favor da redução da maioridade penal, o que levaria mais crianças
e adolescentes das periferias para o sistema prisional tão bem retratado no
filme: violento, superlotado, que dá poucas chances de recuperação.
"Rio eu te amo" é a mais nova estreia que fala sobre o Rio de Janeiro. Ele é o terceiro filme da trilogia Cities of Love (Cidades do Amor), que já retratou Nova Iorque e Paris. Apesar das críticas negativas que recebeu, se fosse para colocar na balança, vejo ele mais como positivo do que negativo. Vamos aos porquês.
É claro que o filme tem um viés comercial mais do que óbvio. É um marketing descarado e exagerado do Rio de Janeiro, com panoramas longas e constantes e as belezas naturais mostradas numa frequência obscena. Os principais cartões-postais da cidade aparecem como cenários para as histórias: Pão de Açúcar, Cristo Redentor, Theatro Municipal, Praia de Copacabana, São Conrado, Vidigal.
Porém, não é por isso que algumas intenções deixam de ser mais do que boas. São sinceramente geniais. Por exemplo, o curta dirigido pelo australiano Stephan Elliot (diretor de Priscila, a rainha do deserto), onde Marcelo Cerrado interpreta um voluntário do conhecido Festival Internacional de Cinema do Rio. Cerrado vai buscar um ator mal-humorado interpretado pelo ator australiano Ryan Kwanten (?). Bem, além do final inusitado que eu não comentarei aqui, tem uma cena fantástica onde a dupla escala (!!) o Pão de Açúcar sem equipamentos e ao chegar no topo dá de cara com uma cantora toda vestida de Branco cantando 'Eu preciso dizer que te amo'. A cantora em questão é Bebel Gilberto, filha de João Gilberto, que canta o clássico de Cazuza.
Enquanto muita gente achou a participação constrangedora, confesso que dei várias risadas no cinema quando vi aquele curtinha sem graça se transformando numa coisa muito louca onde uma mulher vestida de branco e imitando um anjo começa a cantar Cazuza enquanto os dois caras chegam exaustos no topo do Pão de Açúcar. Fico constrangida mesmo é pela incapacidade das pessoas de entender o bom humor de Elliot e achar que ele foi cafona. Cafona também é vida. Pastiche também pode ser crítico e é uma estética intencional que dá cero.
Outro curta que me fez sorrir foi o intitulado Copacabana, dirigido por Fernando Meirelles (Cidade de Deus e 360). Retratando numa luz ousada (estourada, linda) e num ângulo incrível o calçadão de Copa, ele sincroniza os passos dos pedestres com sons, músicas e barulhos. O simpático ator francês Vincent Cassel interpreta um artista de rua que faz esculturas na areia e reconhece, pelo som, uma bela mulher. O que me impressionou mesmo foi a direção de fotografia, o lúdico do filme, o experimental dentro da sequência de historinhas que tecem a linha narrativa do longa.
Por último destaco o criativo "Vidigal". Neste curta, dirigido pelo coreano Im Sang-Soo um vampiro sobe o morro e se sacia numa zona de prostituição. A história não seria tão engaçada se não fosse a atuação de Tonico Pereira. O ator sênior interpreta o mordomo-vampiro meio robótico, que agrada pela comicidade.
Fernanda Montenegro fica subutilizada no papel de Dona Fulana, no curta de Andrucha Waddington (Casa de Areia, Eu tu eles) que, apesar do nome, é brasileiro. Ela é uma mendiga sem graça e a questão dos moradores de rua não é tratada com a devida importância, beleza, sinceridade ou o mínimo de criatividade. Rodrigo Santoro também faz um bailarino que não convence muito num curta muito entediante do Carlos Saldanha, onde a apresentação acontece atrás de um pano, só com as silhuetas dos bailarinos. Que obviamente serve para disfarçar que não é Santoro dançando. Não sei, achei estranho. Era pra usar só o nome dele? Por que não valorizar um bailarino da Companhia do Theatro Municial? Wagner Moura, então? Faz umas críticas aleatórias enquanto fala com o Cristo voando dentro de um parapente. Só. Os atores mais famosos não se destacaram. Possivelmente foram chamados para alavancar o filme e tal e tal.
Realmente, o filme faz parte de uma tendência em vender as cidades como mercadorias para o turista internacional, mas é impossível negar que a reunião de expoentes do cinema resultou em algo que tem seu charme.
Fiquei mais de uma semana enchendo alguns amigos para vermos esse filme e fiquei um pouco surpresa porque alguns não conheciam. Eu achei que o Banksy fosse absolutamente conhecido, mas parece que ele ainda pode ser considerado minimamente underground. Se você não conhece o Banksy... Bem, ninguém realmente conhece. Ele é um grafiteiro inglês que esconde sua identidade, talvez por isso seja tão famoso. Mas não só por isso. Seus grafitis e estêncils são incontestavelmente interessantes. Além do cunho político, eles se desenvolvem com uma conexão sempre direta com o que está acontecendo, como guerras, violência, cultura digital, etc. Ele também interage bastante com o ambiente, não só pintando coisas aleatórias. Ele é, na verdade, um artista plástico completo: também pinta, faz esculturas e instalações. Ah, ele usa constantemente símbolos de ratos e anarquismo. Se um dia você estiver de rolé em Londres, Bristol ou redondezas, preste atenção.
De qualquer forma, esse documentário, Exit Through the Gift Shop (todinho no youtube, dá para achar com legenda em inglês, português, sem legenda, etc) fala um pouco sobre ele, mas na verdade foi dirigido por ele. A história é o seguinte: um locão francês que mora Los Angeles chamado Thierry Guetta é completamente viciado em filmar. Ele filma a família, seu trabalho, tudo mesmo. Até que começa a filmar grafiteiros em LA, por influência de um primo, que o apresenta a um artista local. Therry passa um bom tempo seguindo esse cara, que o apresenta a várias outras pessoas.
Ele tem incríveis e inesgotáveis horas de artistas de LA pichando e de suas obras. Ao longo do tempo, vira amigo dos grafiteiros - embora todos o achem um pouco estranho. Até que, um dia, Banksy aparece na cidade e acaba precisando da ajuda de alguém. E esse alguém é Terry. Os dois começam uma parceria, com Therry gravando Banksy, uma coisa praticamente inimaginável já que, na época (entre o final dos anos 90 e 2000- imagino, já que o filme é de 2010) Banksy já era um famoso anônimo. Logo Therry vai para Londres e também faz imagens de pichações, instalações e do ateliê de Bansky. A questão é que Therry ganhou a confiança de Banksy e fez imagens incríveis. Ele se propôs então a fazer um documentário sobre o assunto, que ficou pronto. Porém, segundo Banksy,o documentário ficou uma bosta. Eu procurei o doc e achei um teaser de 15 minutos (o filme teria pouco mais de uma hora). Eu, particularmente, achei incrível. Apesar de parecer psicodélico, acaba dando uma visão interessante sobre a rapidez com que a cena underground cresce e a velocidade que as pichações se tornam arte e são invariavelmente destruídas. O filme se chamaLife Remote Control e eu não tive - ainda - paciência de tentar baixar o filme todo em algum canto da rede. Mas o teaser de 15 minutos está no youtube mesmo.
De qualquer forma, depois de Bansky achar o filme de Therry uma tortura visual, ele resolve dirigir um doc com as imagens de arquivo de Therry, usando-o como personagem principal. O resultado é empolgante. Vale aqui um adendo sobre Therry, que acaba sendo personagem interessante:
Ele é tido pelos grafiteiros quase como um mascote. Até que resolve ser artista, o que é, na minha opinião conservadoramente contestado. Ele contrata uma turma de artistas para fazer acontecer suas ideias mais loucas e faz uma exposição gigantesca em LA. Ele acaba se tornando um artista pop- no sentido de reutilizar os ícones pops- mas também no sentido de ficar bastante famoso, conhecido como Mr. Brainwash.Alguns grafiteiros acham que ele não faz uma "arte pura", talvez? Mas eu achei os trabalhos dele uma contestação da mídia, e justamente uma reflexão sobre o que pode e não pode ser considerado arte na contemporaneidade.
Se você quer saber mais um pouco sobre o Banksy, leia essa matéria da Super, que pode dar uma ideia. Uma coisa legal é que o Bansky dirigiu uma abertura de um episódio dos Simpsons. É no mínimo cruel. Ah, ele tem um site oficial também. Hoje em dia ele é um cara que vive de grafiti. Tem gente arrancando os muros que ele picha. Mas ele já fez uma ação legal, onde vendeu as obras por sessenta contos nas ruas de NY. Até agora não tenho certeza porque desse nome para o filme. "Saída pela loja de presente"?
Confesso que não sou muito de ver documentário no cinema. Não que eu não goste, mas acho que realmente vai da questão que eles simplesmente não passam muito. De qualquer forma, Junho - O mês que mudou o Brasil me fez sair num domingo chuvoso de casa para ver a ÚNICA SESSÃO DISPONÍVEL, NO ÚNICO CINEMA da cidade do Rio de Janeiro. Inclusive deve estar nas últimas semanas de exibição, então corram se quiserem ver. (Ah, o filme também está disponível no Itunes para ser comprado. Lembrando que para baixar você tem que ter o aplicativo e tal. Enfim, se você tem algum produto da Apple, sabe o que fazer. Infelizmente eles não disponibilizaram online para os mortais.)
~~ parênteses (Primeiramente fiquei horrorizada em saber que um filme que estreou no dia 5 de junho, no final do mesmo mês só estava sendo exibido em um cinema, uma sessão disponível. Eu já falei algumas vezes aqui sobre minha felicidade em ver tantos filmes nacionais pipocando, mas a velocidade com que eles entram e saem de cartaz parecem mostrar como as distribuidoras e cinemas não confiam no que estão fazendo.
Segundamente- risos- queria falar que odeio esses subtítulos. "Junho", somente, era um nome muito melhor do que "Junhoomesqueabalouobrasil", misto de clichezão e tentativa de fazer o público entender que o filme se refere à junho de 2013. Se a criatura está saindo de casa para ver uma sessão escassa do filme, tenha certeza que ela sabe à que Junho- o filme se refere. O público não é besta.
Mas, ao filme: quando eu vejo filmes que tem algum interesse prático na minha vida eu uso bloquinhos de anotação, mas dessa vez esqueci. Então comecei a fazer anotações no celular, com o risco de ser chamada de idiota pelos nazi do cinema que não admitem um pio nem luzes. Eu sou a favor dos cochichos, beijos, risadas altas e comentários inconvenientes- na medida certa. -Ok, esse foi mais um parágrafo de falação. Agora, sim: ao filme.) fim dos parênteses ~~
Mas enfim. O filme foca em São Paulo, já que foi produzido pela TV Folha, um canal bacaninha, vinculado à Folha de São Paulo. O doc é bem cronológico e aborda as principais questões- sem respostas claras- que envolveram os protestos: a violência, a mídia, a polícia e quem eram os manifestantes.
O doc se posiciona de forma interessante, colocando a mídia como uma grande influência na configuração dos protestos, coisa que o Movimento Passe Livre comentou numa entrevista que eu fiz para o JB. O Doc mostra como os jornais e a TV se posicionaram contra os protestos e os manifestantes, numa postura de manter a situação como estava, execrando aqueles que buscavam mudanças. Vários exemplos são dados, como o editorial da própria Folha, que coloca os membros do MPL como retardados aproveitadores, quando diz que "Sua reivindicação de reverter o aumento da tarifa de ônibus e metrô de R$ 3 para R$3,20 -- abaixo da inflação, é inútil assinalar-- não passa de pretexto, e dos mais vis. São jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária, que buscam tirar proveito da compreensível irritação geral com o preço pago para viajar em ônibus e trens superlotados". Outro exemplo vem divulgado foi também o comentário de Arnaldo Jabour, no Jornal Nacional, que culminou na resposta "não é só pelos 20 centavos".
Depois - no filme eles vão colocando, inclusive, os dias em que as coisas aconteceram- a mídia muda de discurso. A Folha, que tinha feito esse editorial citado acima, intitulado "Retomar a Paulista" ~~retomar de quem, jesus, a paulista é do povo~~ , no dia 13/06, fez mais três nos dias seguintes, intitulados "Agente do Caos", no dia 15, que começa falando da truculência da polícia, mas ainda trata a pauta do preço das passagens como irreal e os manifestantes, especialmente o MPL, como um grupo que abriga criminosos.
No dia 19, com artigo intitulado "Incógnita nas Ruas", eles continuam dizendo que a tarifa zero é impossível, mas colocam o MPL de forma mais branda. ~~Mas por que, Folha, por que a tarifa zero é impossível? Basta o transporte ser tratado como direito, não como lucro!~~
Já no dia 20, eles falaram sobre a "Vitória das Ruas", tratando os manifestantes como "força popular" e exaltando-os como poderosos. Bem, Arnaldo Jabour também se retratou, dizendo que os mauricinhos que faziam as manifestações não eram uma classe média tão besta assim.
Acontece que a mídia criticou veementemente aqueles que iam às ruas, especialmente por causa da violência, esquecendo um pouco a violência policial contra pessoas, em favor de objetos- defendendo lojas de depredação, garantindo a segurança da propriedade privada. Aqui, o doc traz uma questão importante: existe revolução sem violência? Até que ponto os flagelados devem se preocupar com mercadorias, lojas, depredação? Não só os flagelados, mas aqueles que - classe média ou não- se importam de alguma forma com a pobreza urbana que veem todos os dias. Aqueles que exploram de forma tão desonesta e injusta, merecem perdão e justiça?. Essa pergunta pode parecer lógica para muitas pessoas, mas é preciso coragem para um filme fazer essa pergunta, com a possibilidade ser acusado de incitar o anarquismocomunismodepredaçãoviolênciaguerraódiocrime, só em questionar.
O fim dos protestos, segundo a visão do filme, se baseia muito na mistura de pessoas que começaram a invadir as ruas e rachas nas pautas.A extrema direita, militantes de partidos, pessoas despolitizadas, que mal sabiam sobre o que eram os protestos. Isso levou à minguar as causas e os protestos. A questão de que as pessoas não deixaram as diferenças de lado por uma pauta maior, por uma pauta só. Pode ser. Também. Mas eu penso que, depois que a mídia se colocou do lado dos manifestantes, com uma segurada na violência policial, houve justamente o que o pessoal do MPL me falou na entrevista: a perspectiva dos traumas.
As pessoas ficaram traumatizadas com tanta violência e pelo que foi conseguido - redução das passagens- ser retirado. O MPL também culpa o fim dos protestos pela criminalização dos manifestantes e o Caso Santiago, onde um cinegrafista da Band morreu, no Rio, em fevereiro. Os dois acusados de atirar um fogo de artifício que atingiu o profissional na cabeça estão sendo acusados de homicídio doloso, quando há intenção de matar. Para o MPL, isso é mais uma prova que a mídia, martelando no assunto incessantemente durante dias, também foi bastante responsável pelo fim dos protestos. Bem, pessoalmente, acho que tudo faz parte de uma mistura meio incompreensível que levou ao fim. Mas o que realmente fez diferença foi: pessoas mobilizadas, politizadas continuam fazendo protestos. Mas quem estava indo só na onda, não faria aquilo para sempre. Querendo ou não, para juntar tanta gente, só com a presença de pessoas não tão mobilizadas assim.
A maior parte das pessoas que não era mobilizada em prol de pautas políticas ou sociais antes do protesto, não está mobilizado agora. Acho. O mais importante - pra mim- é a pequena parte que, devido aos protestos se politizou. Não sei se isso aconteceu em grande escala. Mas se os protestos ajudaram a esclarecer algumas pessoas - eu sei que elas existem porque me vejo como uma delas- já valeu grande coisa.
Sempre fui extremamente cética com relação à movimentos sociais, políticos e eleições, num pensamento fechado que não adianta. Está comprado. Uma grande conspiração nos guia. É isso e é isso. Vamos viver a nossa vidinha, fazendo o bem localmente. Só quero me isolar ao máximo de tudo que é ruim e seguir em frente. Se eu seguir na minha consigo minhas coisas e foda-se. Durante os protestos simplesmente ignorei os chamados de amigos que iam às manifestações. Um pouco por realmente não entender direito o que aquilo iria significar- sentia medo de estar sendo manipulada. E por outro lado, pensava que aquelas pessoas que iam não sabiam do que estavam falando. Não sei até que ponto mudei, mas algo mudou. Real e sinceramente.
Pensando melhor, refleti que as pessoas não precisam saber exatamente do que elas estão falando para estarem insatisfeitas. Não precisam saber exatamente quem culpar para ir às ruas. O fato é que a mobilização popular mudou alguma coisa. Ela chocou, abriu os olhos, abaixou as passagens! E, de uma certa forma Junho de 2013 me fez acreditar na minha profissão novamente (o jornalismo). E sem pieguices, no poder do povo. As redes sociais, uma tecla bem batida no doc, foram essenciais. Um jornalista das antigas chega a falar que as revoluções aconteceram, acontecem e acontecerão, com ou sem internet. Sim. Mas ela foi essencial dessa vez, não pelas convocações, mas sim pelo poder de, nesse país onde a imprensa parece sempre estar do lado do mais forte, mostrar os discursos alternativos. Um complô de pessoas que se importavam enchiam, lotavam, transbordavam as redes sociais com vídeos, fotos e depoimentos que contradiziam o que a mídia falava, ou pelo menos mostrava um outro lado. E os discursos alternativas começaram a fazer muito mais sentido do que o mais difundido. Isso foi simplesmente genial. O discurso alternativo mudou o discurso "oficial", "institucionalizado". Ainda que a Folha seja um grande jornal que errou bastante, esse filme foi um discurso alternativo respeitável.
Domínio Público (dirigido por Fausto Mota, Raoni Vidal e Henrique Ligeiro) é um documentário que fala sobre mudanças no Rio de Janeiro, em função dos mega eventos. Ele foi financiado coletivamente e aborda bastante a questão dos protestos de junho que, de alguma - ou de muitas formas-, mostraram a indignação das pessoas com a Copa do Mundo, principalmente. Outros mega eventos aconteceram na cidade nos últimos anos. O primeiro deles foi o Panamericano, em 2007, que pouco legado estrutural ou social deixou. Em 2013, a Jornada Mundial da Juventude e a Copa das Confederações foram motivo de preocupação para muitas pessoas quando a primeira teve que ser transferida de última hora de local, porque o lugar designado alagou; e, a outra, pelos altos preços dos ingressos e o começo do que foi - está sendo- visto na Copa: remoções, especulação imobiliária e violência policial durante manifestações. O que mais me chamou atenção nesse filme foi a vontade que eu tive que algumas pessoas assistissem. Infelizmente essas pessoas são justamente aquelas que eu acho que provavelmente não vão assistir. Algumas pessoas são de fato contra a realização da Copa. Algumas pessoas não entendem como outras são contra ou não se importam com a Copa. Muitas ficam divididas entre gostar tanto de futebol e ver como o evento serviu para legitimar tanta coisa ruim. Outras não se importam com essas coisas e gostam da Copa, porque sim. Depois de acompanhar - a distância- remoções, manifestações, acordos e decisões duvidosas por parte do Estado, estou com nojo da Copa. Só isso. Esse filme condensou o assunto de um jeito tão didático que me deixou triste. Tipo uma coisa que finalmente estala, quebra e acaba de vez. O filme conta com depoimento de autoridades e especialistas em segurança pública e principalmente de pessoas que, de alguma forma, tem vínculo com as favelas, aqui entendidas como territórios diferenciados e segregados da cidade de fato, tanto na composição geográfica quanto na social. Cleonice Dias é Coordenadora do Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania (Ceacc), uma ONG que trabalha na Cidade de Deus, em parceria com a Action Aid. Para ela, o território das favelas está sendo ocupado de forma errônea pela polícia militar, que entra nas favelas para tomar o lugar do Estado. Ela fala disso no contexto da ocupação militarizada das favelas no rio, que aconteceu -e acontece- através das Unidades de Polícia Pacificadora (Upps): "Essa polícia vem hoje travestida de boazinha, de policia cidadã, que vai pacificar", completa ela, não parecendo acreditar de fato na pacificação que a Upp pode trazer. A própria polícia vê com olhos inseguros o modelo no qual a segurança pública de uma cidade é dividida territorialmente de forma diferenciada, como é a fala do delegado da polícia civil do Rio, Orlando Zaccone. "A critica que se constrói não é a presença da polícia, porque a polícia esta presenta em todos os ambientes da cidade. O que podemos criticar é a transferência do poder de governo para o comandante militar. A partir daí você trabalha esse espaço territorial com um espaço de guerra, conde as pessoas são revistadas e tratadas como suspeitas, etc", comenta ele. Ele ainda se questiona "Não é para dizermos que o modelo anterior de ocupação territorial de grupos armados do tráfico ilícito era melhor, mas qual a diferença entre você ter as decisões sobre a vida de uma comunidade na mão de pessoas armadas no tráfico e transferir essa decisão para a polícia? A polícia tem que ter o papel e seu espaço de atuação dentro da sociedade. Ela não pode expandir".
Alguns especialistas em segurança pública do Rio têm essa mesma visão da Upp: a polícia não tem que fazer o papel do Estado, de organizar e prover direitos e benefícios. Eu já fiz algumas entrevistas sobre esse assunto e certas coisas que eu ouvi me fizeram concluir que a Upp é um bom projeto, mas mal executado. Eleonaldo Julião, sociólogo e professor da UFF me deu uma entrevista uma vez e falou que a ocupação policial não era o objetivo e nem é suficiente para resolver os problemas de criminalidade nem sociais do Rio, coisa que parece tão óbvia, mas, no começo das Upps não era sequer conjecturado por se mostrar como, finalmente, uma movimentação do Estado para integrar as favelas ao resto da cidade. Afinal, a favela faz parte da cidade. O favelado também é cidadão. Não? "O simples fato da entrada dos policiais não é o suficiente. A política da UPP, na teoria, apresenta uma 'segurança cidadã', que não existe, que está se restringindo a entrada de policiais.Uma das questões que se tentou mostrar durante a ocupação da Vila Kennedy, por exemplo, foi uma serie de ações, como a Comlurb limpando as ruas. Uma série de ações que deveriam estar sendo organizadas junto com as UPPS, mas que não estão se efetivando. E o que vai acontecer, é que as comunidades vão começar a ir contra isso, porque elas começam a se sentir lesadas pelo que é a proposta e pelo que realmente acontece".
~~A mídia~~ O filme conta com outros depoimentos como Mônica Franciso, coordenadora do Grupo Arteiras e membro da Rede de Instituições do Borel e, como acabo de descobrir, colunista do JB. Ela fala um pouco do incômodo do morador de ter essa situação de militarização - Estado de Exceção. E, vendo ela falar eu penso: como é possível um favelado não detestar a Polícia Militar, que comanda, de forma direta todas as suas ações?
No artigo chamado Um ano, uma fala destacada por Mônica me chamou atenção: "Galeano diz que na, América Latina, a liberdade de expressão consiste no direito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa circulação. E é isso que está sendo subvertido, e é justamente isso que atemoriza, causa espécie, mal-estar". Será que a mídia tem realmente o poder de mudar alguma coisa? Eu penso em todas as revoluções que já existiram - as coisas boas e ruins que elas trouxeram e toda a violência que foi preciso. Mas toda a violência que já existia antes. Fico pensando se o mundo é isso mesmo, violência exploratória, que gera violência rebelde, que pode gerar violência controladora e normativa. E só. A mídia parece incitar a violência, ora na esperança de mudar, ora na esperança de manter o status quo. A grande questão da mídia é o seu poder, que deveria ser de informação, mas acaba sendo de convencimento. Mas a linha entre os dois é tão tênue, que não sei se ela existe de fato.
No doc constam vários depoimentos e os que me chamaram mais atenção foram, não os dos especialistas, mas das pessoas diretamente atingidas. Tanto por sentir a injustiça que elas sofreram quanto por ver quanto essas pessoas estão politizadas e tentando de fato melhorar o território que elas vivem, seja com o apoio do Estado ou não. Em reação à todos esses confrontos, vai surgindo um lugar onde "as pessoas lutam mais e se insurgem mais", como reflete Maurício Campos, engenheiro e membro do Coletivo de Técnicos Voluntários Contra as Remoções.
Depois de toda essa ruminação pensativa e inconclusiva:
ps.: Viva a iniciativa de colocar online o conteúdo. Por um mundo onde TUDO seja assim.