segunda-feira, 23 de junho de 2014

Domínio Público: sobre o doc e sobre outras coisas





Domínio Público (dirigido por Fausto Mota, Raoni Vidal e Henrique Ligeiro) é um documentário que fala sobre mudanças no Rio de Janeiro, em função dos mega eventos. Ele foi financiado coletivamente e aborda bastante a questão dos protestos de junho que, de alguma - ou de muitas formas-, mostraram a indignação das pessoas com a Copa do Mundo, principalmente. 

Outros mega eventos aconteceram na cidade nos últimos anos. O primeiro deles foi o Panamericano, em 2007, que pouco legado estrutural ou social deixou. Em 2013, a Jornada Mundial da Juventude e a Copa das Confederações foram motivo de preocupação para muitas pessoas quando a primeira teve que ser transferida de última hora de local, porque o lugar designado alagou; e, a outra, pelos altos preços dos ingressos e o começo do que foi - está sendo- visto na Copa: remoções, especulação imobiliária e violência policial durante manifestações. 

O que mais me chamou atenção nesse filme foi a vontade que eu tive que algumas pessoas assistissem. Infelizmente essas pessoas são justamente aquelas que eu acho que provavelmente não vão assistir. 

Algumas pessoas são de fato contra a realização da Copa. Algumas pessoas não entendem como outras são contra ou não se importam com a Copa. Muitas ficam divididas entre gostar tanto de futebol e ver como o evento serviu para legitimar tanta coisa ruim. Outras não se importam com essas coisas e gostam da Copa, porque sim.  Depois de acompanhar - a distância- remoções, manifestações, acordos e decisões duvidosas por parte do Estado, estou com nojo da Copa. Só isso. Esse filme condensou o assunto de um jeito tão didático que me deixou triste. Tipo uma coisa que finalmente estala, quebra e acaba de vez. 

O filme conta com depoimento de autoridades e especialistas em segurança pública e principalmente de pessoas que, de alguma forma, tem vínculo com as favelas, aqui entendidas como territórios diferenciados e segregados da cidade de fato, tanto na composição geográfica quanto na social. 

Cleonice Dias é Coordenadora do Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania (Ceacc), uma ONG que trabalha na Cidade de Deus, em parceria com a Action Aid. Para ela, o território das favelas está sendo ocupado de forma errônea pela polícia militar, que entra nas favelas para tomar o lugar do Estado. Ela fala disso no contexto da ocupação militarizada das favelas no rio, que aconteceu -e acontece- através das Unidades de Polícia Pacificadora (Upps): "Essa polícia vem hoje travestida de boazinha, de policia cidadã, que vai pacificar", completa ela, não parecendo acreditar de fato na pacificação que a Upp pode trazer. 


A própria polícia vê com olhos inseguros o modelo no qual a segurança pública de uma cidade é dividida territorialmente de forma diferenciada, como é a fala do delegado da polícia civil do Rio, Orlando Zaccone. "A critica que se constrói não é a presença da polícia, porque a polícia esta presenta em todos os ambientes da cidade. O que podemos criticar é a transferência do poder de governo para o comandante militar. A partir daí você trabalha esse espaço territorial com um espaço de guerra, conde as pessoas são revistadas e tratadas como suspeitas, etc", comenta ele. 
 Ele ainda se questiona "Não é para dizermos que o modelo anterior de ocupação territorial de grupos armados do tráfico ilícito era melhor, mas qual a diferença entre você ter as decisões sobre a vida de uma comunidade na mão de pessoas armadas no tráfico e transferir essa decisão para a polícia? A polícia tem que ter o papel e seu espaço de atuação dentro da sociedade. Ela não pode expandir". 

Alguns especialistas em segurança pública do Rio têm essa mesma visão da Upp: a polícia não tem que fazer o papel do Estado, de organizar e prover direitos e benefícios. Eu já fiz algumas entrevistas sobre esse assunto e certas coisas que eu ouvi me fizeram concluir que a Upp é um bom projeto, mas mal executado. 

Eleonaldo Julião, sociólogo e professor da UFF me deu uma entrevista uma vez e falou que a ocupação policial não era o objetivo e nem é suficiente para resolver os problemas de criminalidade nem sociais do Rio, coisa que parece tão óbvia, mas, no começo das Upps não era sequer conjecturado por se mostrar como, finalmente, uma movimentação do Estado para integrar as favelas ao resto da cidade. Afinal, a favela faz parte da cidade. O favelado também é cidadão. Não?  "O simples fato da entrada dos policiais não é o suficiente. A política da UPP, na teoria, apresenta uma 'segurança cidadã', que não existe, que está se restringindo a entrada de policiais.Uma das questões que se tentou mostrar durante a ocupação da Vila Kennedy, por exemplo, foi uma serie de ações, como a Comlurb limpando as ruas. Uma série de ações que deveriam estar sendo organizadas junto com as UPPS, mas que não estão se efetivando. E o que vai acontecer, é que as comunidades vão começar a ir contra isso, porque elas começam a se sentir lesadas pelo que é a proposta e pelo que realmente acontece". 


~~A mídia~~

O filme conta com outros depoimentos como Mônica Franciso, coordenadora do Grupo Arteiras e membro da Rede de Instituições do Borel e, como acabo de descobrir, colunista do JB. Ela fala um pouco do incômodo do morador de ter essa situação de militarização - Estado de Exceção. E, vendo ela falar eu penso: como é possível um favelado não detestar a Polícia Militar, que comanda, de forma direta todas as suas ações? 

No artigo chamado Um ano, uma fala destacada por Mônica me chamou atenção: "Galeano diz que na,  América Latina, a liberdade de expressão consiste no direito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa circulação. E é isso que está sendo subvertido, e é justamente isso que atemoriza, causa espécie, mal-estar". 

Será que a mídia tem realmente o poder de mudar alguma coisa? Eu penso em todas as revoluções que já existiram - as coisas boas e ruins que elas trouxeram e toda a violência que foi preciso. Mas toda a violência que já existia antes. Fico pensando se o mundo é isso mesmo, violência exploratória, que gera violência rebelde, que pode gerar violência controladora e normativa. E só. A mídia parece incitar a violência, ora na esperança de mudar, ora na esperança de manter o status quo. A grande questão da mídia é o seu poder, que deveria ser de informação, mas acaba sendo de convencimento. Mas a linha entre os dois é tão tênue, que não sei se ela existe de fato. 

No doc constam vários depoimentos e os que me chamaram mais atenção foram, não os dos especialistas, mas das pessoas diretamente atingidas. Tanto por sentir a injustiça que elas sofreram quanto por ver quanto essas pessoas estão politizadas e tentando de fato melhorar o território que elas vivem, seja com o apoio do Estado ou não. Em reação à todos esses confrontos, vai surgindo um lugar onde "as pessoas lutam mais e se insurgem mais", como reflete Maurício Campos, engenheiro e membro do Coletivo de Técnicos Voluntários Contra as Remoções.

Depois de toda essa ruminação pensativa e inconclusiva:




ps.: Viva a iniciativa de colocar online o conteúdo. Por um mundo onde TUDO seja assim. 

domingo, 8 de junho de 2014

Cinema Marginal: o vampiro da cinemateca



Jairo Ferreira, autor, protagonista e o próprio Vampiro
O Vampiro da Cinemateca, de 1977, dirigido por Jairo Ferreira é um dos filmes mais experimentais do Cinema Marginal. Com uma linguagem que beira ao documentário, com voz off constante e cortante de Jairo, o filme faz uma montagem com diversas imagens de outras obras cinematográficas e de imagens filmadas com Super8 de Jairo.

Ele se posiciona como um crítico, tanto da cultura de massa, quanto de outras situações. Ele faz críticas também a cultura nacional, e ao cinema novo. Em um momento, ele diz: “O cinema novo é um cadáver gangrenado. Um movimento de direita que se julga de esquero, Glauber rocha diz que vai descobrir o certo através do errado, Glauber é uma instituição brasileira, ou seja, ele vai descobrir que ele é o novo lima Barreto na linha direta de rui Barbosa”. Isso mostra todo o desprezo do movimento marginal pelo cinema novo, ainda que este bebesse nas descobertas e obras daquele. Ainda falando sobre Glauber Rocha, maior expoente do cinema Novo, Jairo faz uma crítica direta “Não adianta Glauber, pode estribuchar. Você nunca vai ser o Maiakovski brasileiro”.

O filme não segue uma linha narrativa clássica, intercalando imagens que parecem aleatórias. O único personagem recorrente é o próprio Jairo, que parece fazer o papel do vampiro da cinemateca. O autor costumava chamar esse tipo de filme de “cinema de invenção”. Em certa hora do filme, ele diz “é preciso inventar novos signos”.

Com muitas referências a arte concreta, a antropofagia de Oswald de Andrade e ao cinema artesanal pré-marginal de Mujica, o Zé do Caixão, Jairo parece querer inventar um novo significado para a arte cinematográfica. Em certo momento, ele diz “estamos na trilha da antropofagia anti-colonialista, metalinguagem, sem linguagem, translinguagem, meta super 8, cinema concreto”. O filme é justamente um exemplo dessas abstrações de Jairo. O filme é metalingüístico, porque fala de cinema e seu papel, além de inserir imagens de outros filmes; é concreto, a medida que faz o cinema pelo cinema, a filmagem pela filmagem, o som pelo som – a arte pela arte- sem a necessidade de contar uma história, pregar uma ideia específica ou se propor a ser didático.

O filme é uma obra da montagem, onde seu todo só adquire alguma significação – experimental e inovadora- através das sequenciação. A relação com Mojica e sua admiração fica clara até no título, fazendo referência ao vampiro, um dos personagens favoritos do Zé do Caixão. Este que foi um dos precursores no cinema de gênero brasileiro e provavelmente o mais bem sucedido no quesito terror. Embora com uma estética e ideologia completamente diferente dos marginais, eles incluíram Mojica no seu movimento. A estética suja, as câmeras e o baixo orçamento eram realmente pontos em comum, mas não o maior deles. O objetivo dos Marginais era usar o grotesco para chocar as pessoas, com um objetivo claramente político, porque afinal, eles próprios eram politizados e jovens que sofriam com a censura. Queriam proporcionar um choque de realidade nas pessoas. E com seus filmes de terror, amadores, grotescos e sem um estudo cinematográfico acadêmico, era justamente isso que Mojica conseguia.


Jairo também quer – e consegue- chocar. Seja com a cena de masturbação, seja com o homem em frente ao espelho, cuspindo sangue. Com as ideias de antropofagia na cabeça, Jairo quer desconstruir o cinema, chocar, fazer pensar, usar referências estrangeiras, mas construir um cinema crítico e que não se tenha visto nada igual antes. Ele consegue de fato ser um dos expoentes do cinema marginal e não se viu nada parecido com seus filmes antes – ou depois, pela força imagética e pela força do próprio diretor que, além de personagem, se torna o próprio filme.

O filme está (uhul) no youtube, dividido em partes, com a qualidade ruim, mas é uma oportunidade vê-lo. Sem brincadeira.  

terça-feira, 3 de junho de 2014

Francês: uma viagem extraordinária

Criança fofa e fotografia incrível

O novo filme de Jean-Pierre Jeunet (diretor de O Fabuloso Destino de Amélie Poulin e Alien, a Ressurreição) conta a trajetória de um menino gênio que inventa uma máquina de movimento perpétuo e ganha um prêmio de uma instituição que não tem ideia que ele é uma criança. Uma viagem extraordinária (The Young and Prodigious T.S. Spivet) é uma mistura de Road movie, aventura infantil, delicadeza e fofura. Francês, sim, em todas as características. Mas rodado em inglês. Vai entender.

O menino se chama T.S. Spivet (Kyle Catlett) e depois de perder seu irmão mais novo num acidente com uma arma no celeiro, que ele presenciou, foge de casa para receber seu prêmio. A criança prodígio desenvolve uma grande culpa pela morte do seu irmão e a depressão da mãe. Ainda sim, qualquer cena do filme poderia ser considerada alegre, se vista sem movimento. As cenas são lindas, chamando atenção pelas cores e indumentária. A fotografia e qualidade técnica são simplesmente incríveis. Quem viu Amélie Poulin lembra de como as cores vibrantes e as misturas quase burlescas fizeram sentido na trama. Acontece o mesmo. A infância permanece durante todo o filme, tanto no carisma do ator-mirim-lindo-fofo, quanto na delicadeza recorrente do cinema francês.  

Outra recorrência no cinema francês a comédia/drama, que não tem um humor de gargalhar, mas de fazer esboçar sorrisos, às vezes seguidos de lágrimas. Todos os perigos que Spivet encontra durante sua viagem não são verdadeiramente perigosos, como o caminhoneiro fotógrafo e o policial bonachão. São elementos que contribuem para sua viagem no estilo infantil, se contrapondo com os insights de adulto do menino. Denis Sanacore fez a trilha sonora, que completa a trama de forma bacaninha. Também está presente a sempre linda Helena Bonham Carter, interpretando a mãe de Spivet. Os temas principais do filme –a morte e a culpa- são tratados de uma forma singela. Jeunet parece buscar um entendimento sobre as questões, do ponto de vista infantil e simples. 

O cinema francês vem fazendo relativo sucesso no Brasil- pelo menos vem sendo exibido constantemente nas salas alternativas do Rio de Janeiro. As comédias/drama estão entre os principais lançamentos e costumam contar com elementos recorrentes: a delicadeza, as cores pasteis ou muito coloridas e uma produção impecável. 

A França é o terceiro país em produção cinematográfica em nível mundial e ocupa a segunda posição na distribuição de filmes no mercado internacional. Em 2005, mais de 73 milhões de pessoas assistiram a filmes franceses em todo o mundo.

Segundo um relatório do Instituto Franco-brasileiro de Administração de empresas (Inbae), o consumo do cinema brasileiro vem mudando nos últimos tempos, mas ainda enfrente dificuldades em colocar os filmes franceses em circuito, que são considerados muito “cult”. Ainda sim,o relatório relembra alguns casos de sucesso, como‘Swimming Pool - À Beira da Piscina’ e ‘As Bicicletas de Belleville’, que tiveram, respectivamente 117 e 105 mil expectadores e foram mantidos por 40 semanas em cartaz no circuito brasileiro.

 Lembrando rapidamente consigo pensar em alguns que fizeram relativo sucesso por aqui: Amour, um drama que não deixou ninguém descartar os lenços; O pequeno Nicolau, que também têm um protagonista menino e fez minha tarde mais feliz; e Grand Central, que não convenceu nem como drama nem como romance.

Bem, para quem mora no Rio de Janeiro, tem duas opções maravilhosas (e gratuitas!) para ficar mais por dentro do cinema francês. A primeira dica é o cineclube Cinemaison Rio, da Embaixada Francesa. Eu nunca consegui ir, mas fico aguando na programação. Toda segunda feira a noite (normalmente as 19h) acontece sessão de um filme francês, com legenda. A programação de junho e julho já está online. E uma novidade: durante esses meses, acontecerão sessões na parte da tarde também. 

A outra dica é a Aliança Francesa. O curso de idiomas está sempre fazendo sessões de filmes franceses, mas com um probleminha (ou problemão): alguns sem legenda. Vale a pena dar uma olhada no site e conferir a programação. Neste mês de junho, os filmes terão a temática do futebol. A Aliança Francesa também promovo exposições, lançamentos de livros e debates.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Fim e o Princípio


O Fim e o Princípio começa com Eduardo Coutinho falando que ele e sua equipe foram até a Paraíba fazer um filme sem nenhuma pesquisa previa, em quatro semanas. O que eles queriam era achar uma comunidade rural que os aceitasse, e procurar bons personagens para fazer um retrato do interior do Nordeste brasileiro. Talvez eles não achassem nada...e aí o filme seria sobre isso. A busca incessante que não deu em nada. 

Felizmente deu em alguma coisa. Bastante coisa. O doc consegue retratar a realidade do sertão, caindo certeiro em cima desse tema rural depois das últimas produções de Coutinho terem sido sobre a cidade: Edifício Master e Babilônia 2000, ambos retratando paisagens e personagens urbanos cariocas. 


Eles tem a semelhança de se basearem quase que exclusivamente no que os personagens podem proporcionar, o que eles podem trazer para quem assiste o filme. O Fim e o Princípio traz a temática da morte muito presente, no ponto em que consegue encontrar sertanejos idosos, alguns que parecem centenários, que tem uma visão única sobre a pobreza e a morte que se aproxima. Coutinho parece assim, fazer um paralelo com a sua própria idade e morte próxima, já que ele estava com 72 anos quando fez o filme. 

Por mais que em Edifício Master e Babilônia 2000 nos coloquem em contato com personagens diferentes, quase que excêntricos, ainda assim, eles não proporcionam o contraste que O fim dá. A diferença da estética nordestina é clara assim que os entrevistados aparecem em tela: a pele bronzeada, as rugas fortíssimas, o rosto castigado pelo sol, ainda sim, idosos fortes, acostumados ao exercício diário necessário para os trabalhos rurais. 

Esse tipo de iniciativa, de ir até o interior do país para tentar mostrar ao Brasil justamente o que é o Brasil, pareceu uma preocupação real de Coutinho. O homem urbano contemporâneo, aquele que mais vai ao cinema, mal vê o que acontece no interior do país. Mal tem noção de como é a vida, a cara das pessoas, se não se aventurar para além das praias paradisíacas das cidades turísticas nordestinas. 


Lindamente o filme também está completo no Youtube. Sejamos felizes



Cinema Marginal: Os Monstros de Babaloo



Os Monstros de Babaloo (1971), dirigido por Elyseu Visconti é um filme marginal, sem dúvidas. Porém, para quem já viu algumas obras do Cinema Novo e do Cinema Marginal, fica a impressão de que ele é mais linear e menos fragmentado. O que não tira em nada a inovação e o experimentalismo do movimento. 

Enquanto muitos filmes marginais impediriam que uma resenha como essa começasse com a frase  “o filme conta a história de...”, esse é razoavelmente tranquilo de identificar o tema e a história principal. O filme conta a história de.... Bem, de uma família industrial/burguesa carioca, retratando o relacionamento nada saudável entre seus membros e fazendo uma crítica severa aos valores dessa classe.

O filme tem uma característica acentuada do grotesco e de um cinema que precisa agredir o espectador para se fazer entender. As cenas onde o filho com problemas mentais  (Kleber Santos) é maltratado pela mãe, ou torturado por homens desconhecidos, são extremamente incomodas e esta segunda faz um paralelo direto com a ditadura militar que censurou completamente o filme, na época. Todo o filme tem diversas metáforas para lidar com o regime e com as mudanças sociais e políticas dos anos 1970.

Quando a família canta uma música que era símbolo de nacionalismo, ao mesmo tempo podemos ver como eles são tratados de forma grotesca e feia. A matriarca da família (Wilza Carla) é obesa e em alguma cenas come de forma fervorosa, até fazer com o que quem assiste fique enjoado. Ela trata seu filho, com problemas mentais, como um constante incômodo.

O chefe-da-família, por sua vez, mostra total inabilidade de lidar com os próprios negócios, tem uma imagem velha e um tanto débil, sendo passado para trás pela mulher e também pelas amantes, que só o querem por seu dinheiro.

O interesse e aprovação burguês do estilo de vida americano é presente o tempo todo: toca-se uma música sentimental em inglês, o irmão com problemas mentais e a irmã (Helena Ignez) usam camisetas de universidades americanas e a menina diz que precisa ir para Nova York. Além disso, em certa cena, a mãe diz que quer ir para bem longe do país, para um outro lugar. Isso demonstra muito da “geleia cultural” que veio com o Tropicalismo, passando pela antropofagia de Oswald de Andrade, onde o Brasil consegue se afirmar sua identidade nacional sem rechaçar a influência de outras culturas, mesmo as que são julgadas como opressoras: europeia e americana.

O filme é realmente mais engraçado do que muitos do cinema marginal costumam ser. Tem uma forte relação com as chanchadas, lançando piadas e performances dos atores bastante voltadas para a comédia escrachada, especialmente a empregada Zezé Macedo, que tem um papel surpreendentemente cômico. As alegorias são essenciais no cinema marginal, e nesse filme elas são bastante claras quando remetem o tempo todo a uma família burguesa quase que grotesca. 


O filme está completo no Youtube, embora a qualidade não seja tão boa. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

O Robocop de Padilha


Tenho ouvido - e lido- muito a respeito do Robocop que desde que começou a aparecer é seguido pela expressão "do Padilha". Por que importa tanto o Robocop ser do Padilha? Ou será que o Robocop só importa, pelo menos para nós, por que é de Padilha? É isso.

O interesse de muitas pessoas na superprodução é claramente referente ao papel de Padilha como diretor. Boa parte do público que vai assistir é aquele regular de filmes de ação "industriais", ou de filmes de "super-herói". Mas eu tenho visto muita gente que não assistiria esse tipo de filme querendo conferir a produção só pelo diretor. E o que está acontecendo para ele estar em uma superprodução de 130 milhões de dólares.

Bem, eu acho que as barreiras estão diminuindo. José Geraldo Couto falou que para o que os produtores queriam, Padilha era o suficiente. No sentido de que eles queriam um filme de ação, hollywoodiano, com alguma perspectiva política. O crítico ainda diz que outros diretores poderiam elucidar as questões em pauta -violência, inteligência artificial, relação médico/monstro- de forma muito melhor. Talvez sim, mas como ele mesmo disse, não era o objetivo. O objetivo é um filme de herói para a massa. Isso é tão ruim assim? E eles ainda estão com muita moral por juntar isso com elucidações bem feitas sobre questões morais e políticas, mesmo que não transforme o negócio num embate ideológico intelectual.

Foi melhor - muito melhor- do que os últimos filmes de ação que eu vi nos últimos tempos. (Lembro claramente que queria me enfiar num buraco quando fui ao cinema ver a quinta sequência de Duro de Matar. Ainda levantando questão das armas biológicas e da Rússia do mesmo jeitinho que se tivesse sido feito durante a Guerra Fria.)

Vejo de forma bem positiva a inserção de Padilha em Hollywood.  Só mostra que as indústrias estão mais abertas à outras formas de fazer arte. Vale lembrar que o roteiro não é dele, e não sei qual foi sua influência na criação das cenas. Mas as inserções do repórter americano ufanista para mim fizeram todo sentido no discurso latino-americano da coisa. É assim, como uma caricatura, que os absurdos americanos parecem para nós- pelo menos para mim.

A cena onde o Robocop tira sua armadura também foi surpreendente. E não muito agradável. Fico imaginando se num blockbuster de uns anos atrás, com um diretor americano essa cena existiria. É clara ali a vontade de sacudir o espectador. Pelo menos me sacudiu. Quando reclamam da exposição da violência de Padilha, entendo. Mas as vezes assim, chocando, se faz pensar e dialogar.

Agora falando mesmo da direção, se o intuito era mostrar a automatização da violência, conseguiu. As sequências de ação - que para um filme de ação não são muitas (para frustração da minha mãe, fã de carteirinha de filme bobagento só com luta e sangue)- foram realmente boas.

Padilha fez o trabalho dele, dirigindo um filme hollywoodiano. Não é porque ele é brasileiro, ou andou fora desses circuitos, que não merece seu pezinho na indústria e ganhar algum dinheiro. E, querendo ou não, subiu sim o nível dos filmes de ação.


terça-feira, 4 de março de 2014

'Eles voltam' e a volta por cima do cinema nacional


"Eles Voltam" estreia na próxima sexta-feira, dia 7 de março. O título promete, mas bem, acontece que eles não voltaram. A história conta a trajetória de Cris, que depois de uma briga com o irmão, é deixada na estrada pelos pais. Depois de perceberem que os pais não vão voltar, o irmão sai para procurar ajuda. Cris continua no meio da estrada do interior, esperando. Até que vê que ninguém vai voltar, e segue, meio que sem rumo, em frente. No começo, nem dá para saber se ela realmente quer voltar para casa ou não, tamanho seu silêncio e aceitação. 

Ela é ajudada por um adolescente que mora em um acampamento do MST, o que contrasta incrivelmente com sua origem de classe média de Recife. O que constrói o filme são essas contradições brasileiras que todo mundo sabe que existe, mas poucas pessoas presenciam. Quantos, provenientes da classe média urbana, já estiveram em um acampamento do MST? 

É interessante também a retomada do cinema nordestino, especialmente quando se vive no pólo Rio-São Paulo. Ir no cinema e ver um outro tipo de Brasil, de brasileiro é simplesmente bonito. Pensamos no Brasil e encarnamos os cariocas como brasileiros, esquecendo que num país com mais de sete milhões de metros quadrados e mais de 200 milhões de pessoas, ser carioca é ser do Rio, e não ser do Brasil. Rio e São Paulo englobam pouco mais de 30 milhões. São 170 milhões espalhados pelo resto do território, fazendo cultura, festa e cinema, de um jeito diferente. E tão pouco chega até nós! Acabamos nos acostumando com a produção do mesmo, com os mesmos sotaques, os mesmos problemas, as mesmas belezas. E ninguém parece perceber. Até tomarmos uma porrada na cara, como foi O som ao redor. E a partir disso, outros empurrões, como Cine Holliúdiy e, agora, Eles Voltam. 

Maria Luiza Tavares, encarnando Cris, de 12 anos, tem um sotaque encantador, assim como Elayne de Souza, uma amiga da família que ela finalmente encontra depois de certo tempo. O diretor do filme, Marcello Lordello, escolheu, no seu filme de estreia, trabalhar com não-atores. Essencial. Impossível para um ator ter as rugas e os trejeitos da mãe do menino do MST, que socorre Cris. Talvez impossível alguém interpretar a passividade de Cris, que parece ser mesmo é de Maria Luiza. Em entrevista, Marcello disse que quis não atores depois de assistir Iracema, uma Transa Amazônica, do Orlando Senna e do Jorge Bodanzky e Os Incompreendidos, de Truffaut,. 

Interessante também a trajetória do irmão não ser mencionada. Interessante e acertado. Cris é o centro, não porque é protagonista, mas porque é uma das protagonistas de inúmeras histórias. A impressão é que cada personagem daria um filme. A beleza natural de Elayne, sua história de jovem meio perdida, a intelectualidade brasileira em meio a pós graduação, drogas e amores sem jeito poderiam dar outro filme (por favor!). Sem contar as filhas da senhora do MST que, num segundo momento, ajuda Cris. Como será a vida dessas meninas do interior, do MST, que ajudam a mãe como faxineira, mas querem fazer faculdade em outra cidade? 

O filme vale a pena pelos sotaques, pela beleza das cenas e pelo silêncio, que as vezes é difícil de encontrar na dose certa. Que mais gente do nordeste chegue até o circuito nacional. E mais gente do sul, centro-oeste, norte... Mais uma vez penso no dia que todos as salas de um cinema serão ocupados por filmes nacionais, não seria tão bonito?